Um mesmo momento longo

O Estado de S. Paulo – 11 de maio de 2022

Entender a psicologia do brasileiro e sua parte de responsabilidade naquilo que vive, a que se submete e de que reclama ajuda a analisar a eleição. Nosso problema não é somente culpa de presidentes com problemas com as Justiças Criminal e Eleitoral, cassados, encarcerados ou processados no exercício do mandato. É, também, do eleitor capturado pelo cansaço de tudo. 

O mero sustento da vida que o leva a decidir em quem votar não deveria colocar em segundo plano a preocupação com a melhor chance de vida estável a que tem direito. Submetido à informação truncada e à passividade, ele não percebe que perde todas as forças de análise e defesa. Como animal civilizado que acha que é, sofre contusões, cai em armadilhas e se oferece ao predador de forma tão ingênua e cativa de fazer vergonha a animal solto em seu ecossistema natural. 

Um país com tantas florestas e recursos naturais, é nas cidades que a luta pela domesticação se faz de maneira mais selvagem. Eleição entre nós é um circo, bichos trapezistas que atraem o público. E é o público que os paga, a troco de ilusões. Deveria ser possível escolher alguém maior do que aquele com o qual temos interesses pessoais envolvidos em nossa decisão. A angústia da esperança paralisa o bom senso em eleição. 

A conta da política e de partidos disfuncionais chegou para os brasileiros com o nome de polarização e hiperatividade de interesses – uma eleição pernilongo, que, como a inflação, pousa, pica e deixa ali coçando, podendo virar infecção. A forma psicológica que a preguiça encontrou de impedir a pessoa de usar a inteligência da negatividade a seu favor é carregar na emoção e obscurecer o discernimento. 

A principal carência da rigidez binária em política, muito parecida com o homem ativo de Nietzsche, é que “aos ativos falta usualmente a atividade superior e, nesse sentido, eles são preguiçosos. Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica”. São máquinas às quais falta a capacidade de hesitar, não admitem interrupções, pausa para pensar. Sua aceleração geral e frenética é impulsionada por analistas de TV, internet, postagens em redes sociais, autores e livros oportunistas. 

“Você viu o que fulano disse?” e “E a pesquisa, hein?” são o início da conversa mais corriqueira e burra dos últimos tempos. Um ser doente de certeza sempre começa assim sua catequese para impedir que se manifeste a negatividade sadia. Negar é o que põe dúvida ao lugar-comum para emergir a novidade, a liberdade da mudança. 

Assim como na famosa frase caluniai, caluniai, alguma coisa sempre fica, o mal da polarização como um sistema é produzir medo, confusão e distorção. Os polarizados não são personagens de dois momentos diferentes da nossa história, mas de um mesmo momento longo, produzido pela polarização. Assim, um quer a volta dos militares, outro, o jingle de 1989, eleição polarizada, sem governadores e parlamentares. 

Até agora, o que predomina é o rosário de traços discordantes com a normalidade democrática e hostis aos pilares da civilização ocidental – democracia, racionalidade e competitividade econômica. O risco de ser governado por quem tem identidade com Putin, o engolidor do sol do outro, é eclipse e nudez. 

Enfim, em situação não heroica ninguém sente a perda do presente. Se tudo é eterno retorno, falta força para pensar alternativa reflexiva. E a pobreza do cardápio de ideias quer dar ao prato feito a aparência de saciedade. É uma histeria da sociedade extenuada, contida pela política dos partidos financiados pelo Estado que apostam tudo na rixa entre eleitores. 

Não é hora de elogiar candidato. Com a política tão excessiva e cotidiana entre nós, as ideias fora do lugar, instituições civis fora do eixo, militares sensualmente provocados em suas emoções e a economia a Deus-dará, melhor olhar o futuro. Até agora, são interesses políticos privados que impõem ao inconsciente do eleitor tal noção de preferência, ordem e hierarquia. Tal fato alterou definitivamente o sistema imunológico do cidadão, tornando-o incapaz de distinguir entre ele e o outro, o cru e o cozido. O inessencial é visível aos olhos. 

A política da pressa e sem filosofia gosta de fato consumado. É só observar a baixa vocação para o progresso no caso de cidades e Estados onde líderes populistas, manipuladores, mandam e desmandam até o fim da vida, sem deixar os moradores em paz. Não existe liberdade nesta coisa do “tudo em um”. É uma coação desmedida expor-se ao interesse insaciável do outro que vê o eleitor como uma tralha velha. 

Quando a política de preservação do poder prevalece sobre todos os outros objetivos, não há interesse nacional. Prevalece a lógica da nomenklatura burocrática dos partidos. Não importam direita, esquerda, masculino, feminino, farda ou terno. Já tivemos de tudo e demos com os burros n’água. O eleitor disperso, cansado, que se acha vivo demais para morrer na mão do outro, é tratado como morto demais e não consegue mudar nada. Política dos políticos, a morta-viva que esmaga e impede o cidadão de ajudar o Brasil desinteressadamente.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor de Empresas e Instituições, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas e Correio Braziliense.

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