UM TRANSATLÂNTICO ITALIANO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de fevereiro de 2018.
Em jornais brasileiros ao longo da semana, um anúncio pago pela diplomacia italiana convida para votar para o parlamento do país, nas eleições de 4 de março, seus cidadãos residentes no Brasil. Boa parte dos países permite que seus eleitores participem de suas eleições. Porém, na maioria das vezes, de forma limitada. Os brasileiros residentes no exterior, por exemplo, só votam para presidente. A península italiana navega mais longe em elogiosa exceção.
Um dos raros países do mundo que criou uma circunscrição eleitoral estrangeira onde italianos, nascidos ou não na Itália, podem votar e ser votados. Na condição de residentes no exterior, se eleitos, exercerão funções de deputado e senador da República em Roma. Dentre os atuais candidatos, há a administradora Silvana Rizzioli, iluminada mineira-italiana concorrendo ao Senado, em dobradinha com um igualmente brilhante jurista, Walter Fanganiello, paulista-italiano para deputado.
O consulado no qual está registrado o eleitor já enviou para sua residência um envelope com informações, inclusive a lista dos candidatos da repartição América do Sul, mais a própria cédula eleitoral. O voto é feito por correspondência, ou seja, basta preencher a cédula, inserir num envelope que vai incluído no kit e remeter de volta ao consulado. Para quem vota a partir do Brasil, o voto deve chegar ao consulado, no máximo, em 1º de março. Na Itália, as eleições ocorrem três dias depois.
A última eleição parlamentar ocorreu em 2013. À época, 3,5 milhões de residentes no exterior estavam aptos a votar. Desse total, 1 milhão localizados na América do Sul, dos quais 260 mil no Brasil. O Congresso italiano conta com um total de 630 deputados e 315 senadores eleitos. Desses, a América do Sul elege quatro deputados e dois senadores. A América Central e do Norte, dois deputados e um senador. África, Ásia e Oceania, juntas, um deputado e um senador. A Europa, com até 1,9 milhão de eleitores aptos, cinco deputados e dois senadores. De tal forma que 18 parlamentares italianos eleitos são oriundos dessa circunscrição “estrangeira”, dividida em quatro repartições, que são agrupamentos dos continentes.
Na repartição América do Sul, a Argentina tem o maior número de eleitores: 520 mil. Na Europa, o destaque fica para os 450 mil na Alemanha, e os 400 mil na Suíça. Na América do Norte, os EUA têm 170 mil, enquanto o Canadá, 110 mil.
A importância do pleito atual tem muito a ver com a indecisão resultante da eleição de 2013. À época, não houve vencedor claro e o país seguiu governado pelo tipo de solução tecnocrática que colocou Mario Monti como primeiro-ministro. Monti, o puro tecnocrático — até então, não tinha tido um voto — ficou até a formação de um governo por Enrico Letta, em abril de 2013. Mas Letta não ganhou a eleição, logo, não era muito diferente, assim como Matteo Renzi, que o sucedeu, e o atual, Paolo Gentiloni. Basicamente, nenhum deles é político de massa, mesmo tendo se destacado em suas atividades originais e em eleições. São indicados como primeiros-ministros para formar um governo por um presidente que é eleito de forma indireta por sete anos pelo parlamento, mais representantes das regiões do país.
Os dois palácios, Madama e Montecitorio, respectivamente sedes do Senado e da Câmara dos Deputados, são símbolos da ideia da projeção da Itália, como a velha Roma, para muito além dos tempos atuais. Há ali nostalgia de império, a qual é expressa na ousada disposição constitucional que garante vagas no parlamento para italianos nascidos em qualquer país.
Quando o austríaco von Metternich, na primeira parte do século 19, gracejou sobre a Itália ser apenas uma “expressão geográfica” — uma vez que a península se encontrava dividida em territórios independentes. Talvez a pecha tenha pegado porque ela carrega uma verdade positiva sobre a Itália. Por tudo o que entregou ao mundo, ela é, sim, expressão geográfica, a península e suas ilhas entre o Mediterrâneo e o Adriático. Mas é também expressão cultural, imaterial, e se orgulha muito disso. Porque, seja na imposição imperial, ou na condição frágil de imigrante, ou na pura sedução dos livres mercados, a Itália levou para os quatro cantos do mundo coisas boas, vinculadas à grandeza que se tem do país.
Nada mais natural que valorizem ao máximo essa conexão num parlamento povoado por italianos espalhados pelo mundo, pois esse é o saboroso império que faz sentido hoje, num mundo que é global, mas não é livre e democrático. A despeito de todo o caos que lhes é atribuído, Madama e Montecitorio são vanguarda. Fato expresso no jocoso nome dado ao saguão da Câmara dos Deputados, “il Transatlantico”, praça principal por onde navega a política do país.
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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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