A era do líder vilão

A era do líder vilão
Estado de Minas e Correio Braziliense, domingo, 20 de março de 2016.

Só é justo se eu for o primeiro, pode bem ser a insígnia do líder atual em sua justificação moral para o direito de vencer, mudar e ofender.

Sem virada de mesa, para os Republicanos, é Donald Trump, mais do que Ted Cruz, dois pregadores radicais, que vai varrer do mapa quem os incomoda. Ficar entre um e outro não é nada confortável, nem para conservadores. Mas o fato é que brincaram com fogo. Atiçaram e deixaram crescer um agrupamento de mau humor diante das dificuldades do mundo moderno. A irracionalidade com que trataram o governo Obama lhes custará ter que negociar com irracionais profissionais. Aqueles que flertam com a irracionalidade em benefício próprio. Calculado de forma oportunista o benefício, os republicanos se agarram ao cinismo de dizer que o Trump vitorioso não agirá conforme o Trump candidato.

Sinal dos tempos haver dois Trumps bem distintos. Distinção que esquentou a fornalha brasileira, as duas Dilmas, e pôs em cena Lula, um grande praguejador.  Trump tem fortuna conhecida. Lula invocou a serpente quando um juiz corregedor teve a ousadia de perguntar ao mito-pobre a origem do líder-rico.  A versão dos políticos, fora dos holofotes, costuma ser um baile de máscara. Trump questionado sobre as duas caras respondeu: “creio que existam dois Trumps. Não creio que existam dois Donald Trumps”.

Misturando conversa de auditório com a economia do intimidador o líder bufão se acha um predestinado aproveitador do contexto de descrédito da política. Como Berlusconi, Putin, Chaves, Evo, Trump busca se eleger presidente açoitando políticos, manipulando favores, como também o fez Collor e Lula. Todos os outros estão comprometidos. Só ele, magnata que doa para si mesmo, é legitimamente livre.

Ciente do desconforto que causa, Trump segue a sina e ameaça com “levantes” que ocorreriam se manobrassem para impedir sua candidatura. “Teríamos problemas como jamais vimos antes. Eu não as lideraria, mas coisas ruins aconteceriam”, enfatizou Trump à CNN.

Trump se coloca como líder de um exército de frustrados. Pessoas angustiadas com o período cujo arcabouço foi erguido sob Bill Clinton. Nesse contexto, por mais diferentes que sejam, Donald Trump e Bernie Sanders, o quixotesco opositor democrata de Hillary, são duas faces da mesma moeda. Ambos falam aos descontentes. Que mesmo não sabendo formular bem o que é, sentem que algo está errado. Trump, como Collor, é o populista caro. Bernie Sanders, como Lula, é o barato.  Entusiasma os cansados em busca de uma narrativa didática para suas dúvidas angustiantes. Ele a provê. Serve de guia aos perplexos diante da contabilidade da Oxfam, ONG britânica, que aponta que 62 indivíduos têm fortuna equivalente a 3,7 bilhões de pessoas ao redor do mundo. A concentração de riqueza nunca foi tão violenta. Frente a isso alguns reagem buscando um Trump, outros um Sanders. Caminhos distintos, na mesma encruzilhada, onde a percepção geral é a falta de líder sensato no mundo.

Em tal turbilhão, uma pessoa transita passado, presente e une os dois lados da balbúrdia política seguindo sua política de centro. Cada vez mais ao centro, Hillary Clinton, obcecada com a presidência, parece, para muitos, intragável como jiló. Não se gosta, nem se quer, mas não faz mal. Hillary representa um jeito de fazer política que ecoa em décadas de políticos da esquerda e da direita americanas. Todavia é Sanders que entusiasma, ainda que, como não fala à questão racial americana tão habilmente quanto os Clinton, precise ganhar em média 60% dos votos daqui para frente para fazer frente à Hillary. Ora, Hillary será provavelmente a candidata dos democratas e de parte do próprio establishment republicano.

Em meio a tudo isso, um líder suficiente e moderado, Obama, listou as palavras decência, modéstia, integridade, imparcialidade e excelência para descrever Merrick Garland, seu derradeiro indicado à Suprema Corte. Juiz admirado por pessoas dos mais variados matizes políticos dos EUA, Garland é um juiz testado e justo, ponderado e discreto. Obama foi buscar em Garland um conciliador. Não é alguém que fala ao cerne das atuais bandeiras do Partido Democrata, mas que servirá ao país que transita em mares de confusão política.

Democracia direta, políticos eleitos e oficiais não eleitos (juízes), cada um com suas prerrogativas, evitando desarmonias para permitir travessias para momentos melhores. E a eficácia da justiça pode ser um suplício para a dupla face do político vilão.

 

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 PAULO DELGADO é  sociólogo.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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