A Força do Cristianismo

A Força do Cristianismo

Correio Braziliense e Estado de Minas. Domingo, 27 de dezembro de 2015.      

 Inteligência e juizo não andam bem no mundo atual. Mas respeitar a fé dos outros revela bem todo o segredo do intelecto.

Não parece que o mundo esteja tendo muitos dias para, com plena liberdade, resolver seus desentendimentos com Deus e com os outros. Mesmo para quem não for capaz de dispensar as funções e as preocupações do dia a dia, essa época que vai do Natal ao Ano Novo é um período em que faz bem refletir sobre questões mais amplas de compaixão e fé. Isso porque, qualquer que seja a compreensão que temos da vida humana, é na relação com o sentimento dos outros que vão se conformando e definindo nossos valores.

Muro das Lamentações em Jerusalem, Mesquita Azul em Istanbul, Notre Dame de Paris, Templo Huazang no Monte Emei, Catedral Nacional de Washington, são inumeráveis exemplos de templos judeus, maometanos, católicos, budistas e protestantes. São, acima de tudo, lugares para reconciliação espiritual do ser humano, tenha ou não tenha fé. A paz entre as diversas religiões deveria ser um dos princípios da vida normal. As diferentes convicções não deveriam gerar perseguição e martírio, como ainda ocorre no Oriente Médio. No norte da África e Oriente Médio 91,2% da população é muçulmana. Na Arábia Saudita, celebrar o Natal é crime. Tornar santificado um Estado e seu governo é contribuir para aumentar o conflito entre o direito, a fé e a opinião.

Onde há simplicidade, há melhor compreensão da verdade. Depois de longos dissabores o cristianismo conseguiu se separar do Estado e se aproximar mais das ideias originais. Disposto a libertar seu povo da opressão e ir além para salvar toda a humanidade, Jesus se tornou um profeta forte por escolher o caminho de falar ao coração. Misturando instituições romanas, filosofia grega e oriental  e a energia das tradições judaicas, buscou sua força na poesia das palavras, transmitida em inigualáveis parábolas, onde afirmou que era pelo perdão de todas as ofensas, em fraternidades e banquetes, que se constrói o caminho da procurada salvação.

Cerca de um terço da humanidade professa a fé cristã. São 2,1 bilhões de pessoas, espalhadas em todos os continentes. O maior número de cristãos encontra-se nos EUA, onde 51% do país é protestante e 24% católico. O Brasil vem em segundo lugar. Ambos têm pelo menos 80% da população, praticante ou não, na órbita do cristianismo. Na China, que ainda tem a maior população do planeta e com significativa maioria de não religiosos, apenas 5% da população é cristã, mas, já é o 7º país com maior número de cristãos. A previsão é que o mundo terá em 2050 3,1 bilhões de cristãos. Boa parte virá da Ásia. Já o islamismo, com 2,23 bilhões de fieis em 2050, é a fé que cresce mais rapidamente. A essência do caráter cristão, religião dominante do mundo, deve contribuir para que ninguém possa ser obrigado a negar sua religião. Pode ser um bom caminho para a manutenção dos valores universais do cristianismo, entranhados nas instituições globais.

É certo que os comportamentos morais e os mistérios que impulsionam as pessoas para a fé podem ser encontrados mesmo entre aqueles cujo humanismo não nasceu de fundamentos sagrados. E é nesse momento que é possível pensar num valor universal, que possa unir comportamentos religiosos e laicos, em torno de um diálogo que assegure o progresso da vida e a paz de nosso espírito. Esse ponto comum pode ser a ciência e suas certezas; as coisas práticas que não deixam dúvidas; ou o senso de dever e de justiça que nos leva ao cumprimento das mesmas leis. Pode ser também o sentido do sagrado que é a necessidade de preservar a inocência de uma criança; a certeza de que a proteção da família e da maternidade é um fator decisivo na sobrevivência dos bebês; a sensibilidade para partilhar idéias sobre o senso de vergonha; a naturalidade para respeitar a propriedade dos outros; a oposição irrestrita ao preconceito e ao fanatismo.

Querer bem aos semelhantes pode também ser uma boa regra da política, quando esta reconhece, pela criação da justiça tributária, que não devemos dar a César mais do que é de César. A boa fé dos governantes e seu compromisso com justiça para todos ajudam a diminuir o espaço do instinto natural e da violência. A tolerância é um desígnio e uma necessidade humana cada vez maior. Seja aceita por razões religiosas, seja formulada por princípios jurídicos. Um mundo orientado para a paz garantindo a plenitude da vida de cada um .

Não é a razão, a riqueza, a saúde, a beleza. O que de fato que mais nos eleva é a bondade. A virtude do exemplo como freio ao avanço da ambição. Que 2016, amplie da bondade, sua voz inconfundível.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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