A Fúria da Opinião

A Fúria da Opinião

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 23 de Março de 2014.

O amor devia ser uma coisa simples e não ocupar tanto tempo e preocupação da vida das pessoas. Imagine misturado à política, essa coisa incompreensível em que todos falam sozinhos como se não houvesse um denominador comum para o sofrimento ou a satisfação. A tela A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix, pintada para comemorar a Revolução de 1830 na França, levou quase 50 anos para entrar no Museu do Louvre e ali ficar acomodada na parede como símbolo indesejável aos governos por combinar duas palavras explosivas quando juntas e em movimento: liberdade e povo.

Diga agora se pode determinada região de um país decidir não fazer mais parte desse país, não querer ser independente, mas querer fazer parte de um outro país? Essas são perguntas que não são respondidas com pode ou não pode, mas sim com consegue ou não consegue. Se regiões e povos não pudessem se rebelar contra o governo central, certamente não existiriam no mundo os países que hoje estão aí; como estão aí. O retrato do mundo são partes de um filme sobre o que se conseguiu separar e juntar até aqui. É o fato consumado sobre o qual não se tem força ou suficiente disposição para causar uma reversão. O que é insólito no caso da Crimeia é parecer um distrito decidindo trocar de município. É insólito, pois secessões são atos de força, não de mera vontade, tampouco de direito.

Assim, há um teatro jurídico encenado na Crimeia. Mas é bom que se prossiga com ele. Porque no roteiro há sempre espaço para adaptações que alterem o curso da história, colocando-a em direção a um final feliz. Como a Ucrânia não tem força, nem sincera vontade de enfrentar a Rússia, a questão é saber se a OTAN considera a integridade territorial da Ucrânia como símbolo e se estão dispostos a parar o expansionismo russo a todo custo, exauridos os sobe-desce até aqui.

Isso porque, antes de virar teatro, a Ucrânia era um tabuleiro de xadrez cujas peças claras eram movidas desde a Rússia e as escuras dos diferentes gabinetes dos líderes da OTAN. Ao longo dos anos, as estratégias que levaram vantagem estavam ora de um lado, ora do outro, mas o que sempre pairava acima de ambos era a compreensão de que nenhum xeque-mate seria aceito de modo cavalheiro. Sendo assim, o ideal era manter um jogo sem fim. O problema é que o jogo instiga à busca pelo xeque-mate. A Rússia, que tem influência natural sobre a Ucrânia por deter grande parte de sua dívida, seu comércio e sua energia, nunca escondeu a insatisfação com os avanços da União Europeia para cima de sua ex-camarada soviética.

Não só por essas questões econômicas, mas porque União Europeia de farda se chama OTAN. E é difícil entender como alguém pode não compreender a veemente animosidade russa à presença da OTAN na porta de casa. Ao sentir-se encurralada pela proposta europeia de um Acordo de Associação com a Ucrânia, a Rússia reagiu, livrou-se da situação e, dentro das regras do jogo, colocou a Europa em xeque. A resposta europeia à Rússia foi, inicialmente, de satisfação ao ver o tabuleiro ser lançado aos ares diante de uma população atordoada de tanto ser manobrada.

A Europa agiu mal ao não refrear seus impulsos para cima da Ucrânia convidando-a para ter coração e jeito de vida europeu. Deveria tê-la deixado como Estado tampão que nasceu para ser. Ou, idealmente, trabalhado para que o país se tornasse ponte sintética entre as culturas e economias de um e do outro lado do rio Dniepre. Se existe o problema do “expansionismo russo” como se prega nas capitais do Ocidente, não dá para achar que o expansionismo europeu deve sempre ser bem quisto. A presunção de que a Rússia estava morta e de que a superioridade da ofensiva europeia era verdade auto-evidente são ideias presunçosas, perigosamente ingênuas, ou disfarçadamente mal-intencionadas. A Rússia não é mais “soviética”, mas a Europa a quer assim para cozinhar a divergência na graxa da ideologia.

Se os soldados russos mal fantasiados de não-soldados russos marchando sobre uma receptiva Crimeia pareceram farsa, o referendo foi um sucesso de público. O ideal é permitir que a novela se estenda para um desfecho apaziguador que restabelecesse os jogos de estratégia restritos aos campos político, econômico e diplomático. Até lá, cautela e recato face à fúria das opiniões e das vontades democráticas e antidemocráticas em curso. Sem atiçá-las demais até que adormeçam como fotografia na parede, para que da farsa não se faça a tragédia.

A realidade é inimiga da satisfação absoluta dos desejos. E se alguma coisa está sendo feito por amor nesse caso é bom saber que o amor não tem finalidade, não se destaca pelo talento dos nele envolvidos, é pura singularidade. Assim também deveria ser compreendida parte da política das nações.

PAULO DELGADO é sociólogo.

 

a fúria da opinião

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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