A GLÓRIA DO CHARLATÃO

A GLÓRIA DO CHARLATÃO

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 08 de Janeiro de 2017.

Pátria, Estado, Nação, Revolução, já não são mais caminho para a salvação de sonhadores. O nacionalismo, a fantasia revolucionária, desapareceu do compromisso das ações concretas, de natureza militar, em todos os lugares onde a história da democracia predominou.

Mesmo nos países belicistas, o serviço militar vem se tornando progressivamente voluntário, pois o sacrifício mortal a que são submetidos os jovens nas guerras se constitui nos maiores crimes da história. Na OTAN de hoje o único país relevante a utilizar conscrição é a Turquia, que perdeu mais de 560 vítimas de atentados terroristas nos últimos dois anos. Por outro lado, sinal das sombras do momento, a Alemanha discute retornar com a conscrição. Assim como a simbólica Suécia. Ou seja, avanço contrabalançado por recuo no duro coração dos países orgulhosos e guerreiros leva o povo a se entregar ao medo.

A desolação que acompanha guerras e massacres humanizou a maioria dos países e nenhuma sociedade para em pé se essa não for a lógica predominante. Por isso Deus, a Igreja e a Religião, tão influentes em toda a sociedade humana, não deveriam ficar muito longe das nações democráticas, distante do território e da vida dos cidadãos. O século XXI não deve ter medo das religiões, mas sim andar com elas ajudando-as a reformar seus desvios violentos.

No mundo dos sentidos e das preocupações atuais, a fé, esse anseio da alma de milhares de seres humanos, deve ajudar a amparar as provações de cada um. Especialmente dos que temem pelo futuro e vivem uma vida frágil no presente. Certos, porém, de que, assim como crer não exige comprovação, a oração não deve visar nenhum propósito além do conforto da fé, pois não se barganha com Deus. Por isso, como entidade de sacrifício que ainda persiste em tantas crenças, a religião deve estar sempre repensando quais são os bálsamos que verdadeiramente curam, tratando de circunscreve-los ao campo das virtudes. O mundo não pode ser mais aquele da maldade e guerra santa.

A fé em Deus, Alá, na Trimúrti é uma experiência da alma e não um esforço da inteligência. Talvez por esse motivo a devoção sobreviveu a todas as investidas contra ela. Da razão, da ciência, da tortura, da política, da incompreensão, do obscurantismo, da intolerância. Cultivando a serenidade, valorizando a contemplação sobre os limites da vida e estimulando a ação em benefício dos outros, a fé é a mais antiga ferramenta da vida em sociedade.

Como nenhum poder pode subjugar quem não tem medo da morte, as religiões que ainda valorizam o sacrifício deveriam se dedicar a aceitar alguma reforma na sua compreensão das Escrituras. Como a Igreja Católica foi obrigada a aceitar muitas das teses luteranas, calvinistas, entre outras, num esforço contínuo de aperfeiçoamento. O mundo nunca foi estático.

Todos percebem a grande tensão, e até certa infelicidade, em que vive a União Europeia. Seu maior defeito – a ineficácia que pode enferrujar sua engrenagem ao empregar de forma errada uma ideia genial –  é o deficit de democracia em que operam seus Conselhos diante da questão da soberania de suas nações. Tudo está sendo feito para rasgar princípios por uso manipulado das razões políticas. A União Europeia não corre nenhum risco se decidir continuar unida e crescendo. A decisão soberanista da Inglaterra foi um erro, como o foi, no passado, Elizabeth I mandar decapitar Maria Stuart.

A maioria das questões relevantes hoje não param na cerca das fronteiras nacionais. E, como só o continente Europeu aceita, consensualmente, que o progresso significa que o Estado deve ser democrático, a liberdade de opinião e de pesquisa deve ser ampla e a Igreja deve ser separada da política (laicismo), só a companhia da União Europeia salva a Turquia.

Todavia em tal caso, parece não haver nenhum europeu sincero. A União Europeia é muito mais do que a Europa. Seus tratados de constituição e de adesão de novos membros são tão amplos, cultural e geograficamente, que não permitir a entrada da Turquia é decidir isolá-la e eliminar das gerações futuras o bem comunitário e universal que a civilização otomana deixou para o mundo e a Europa. Ao negar o visto de entrada da Turquia, o belo país do meio das grandes civilizações, admirador e afluente incontestável da Europa, a União Europeia não só ajuda a desmoralizar os democratas turcos, jogando gasolina na fogueira do extremismo, como dá um sinal trocado para os muçulmanos que não são fanáticos, como predomina na religião do país.

A outra opção é riscar um século de história e continuar a gloria do charlatão, o governante adorado, que  melhor confunde a opinião pública e leva as nações ao desastre.

 

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Paulo Delgado é sociólogo

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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