A Guerra Invisível

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 26 de Maio de 2013.

A República do Djibouti é um pequeníssimo país no chifre da África. Sua localização é estratégica na África Subsaariana por sua proximidade com a Península Arábica de onde estão separados por apenas trinta quilômetros de águas, no encontro entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden no Oceano Índico. Após os ataques às Torres Gêmeas, em 2001, os Estados Unidos arrendaram um terreno no país, pelo qual pagam 38 milhões de dólares anuais, para montar a base, a partir da qual, levam à frente seu combate contra ameaças de terrorismo. A base, conhecida como Campo Lemonnier – o nome francês lembra a área usada pela Legião Estrangeira quando o país era uma colônia chamada Somália Francesa – é um dos principais locais de onde partem os drones: os zangões armados, não de ferrões, mas mísseis, da Força Aérea Americana.
Como toda nova tecnologia de alta complexidade, os drones, vire e mexe, se acidentam. Os Predators e os Reapers, modelos americanos de drones que são as vedetes desse tipo de tecnologia, caem, em média, mais de um a cada mês. Isso não quer dizer que muitos países não estejam ávidos para colocar as mãos nesse tipo de tecnologia que já altera, militar e moralmente, a forma de se combater e proteger um território. A França, por exemplo, comemorou nessa semana o fato de terem conseguido convencer o governo americano a vender urgentemente dois Reapers , para colocar a Armée de l’Air, sua aeronáutica, mais próxima do que vai na vanguarda do combate aéreo. O Congresso americano precisa dar seu aval para a transação se concretizar. A expectativa francesa é poder colocá-los em operação já nos combates que tem travado no Mali.
Existe muito exagero e fantasia em muitas das críticas que são endereçadas aos drones, como é visível em algumas das ridículas obstruções que alguns Republicanos têm armado no Congresso americano em torno desse assunto. Mas uma questão crucial, realmente relevante, é a de que seu uso exige uma reavaliação das ideias mais básicas do que seja a guerra; e da diferença entre morrer em combate, ou pura e simplesmente assassinar alguém. Também é preciso rever o que define matar pessoas fora do campo de batalha (se é razoável aceitar o fracasso da política e compreender a lógica de se matar alguém) e quais são os limites – se é que eles devem existir – para se violar a soberania de outros países, atrás de seja lá quem for. Toda a história da guerra gira em torno do aperfeiçoamento de tecnologias para infligir perdas aos inimigos cada vez a maior distância – um percurso que foi do punho ao punhal, do fuzil ao míssil. Mas a precisão cirúrgica, aliada a não participação humana direta em combate que busca se alcançar com o uso dos drones, é um passo muito além do imaginável. Algo que mexe com valores básicos sobre o exercício do poder e do uso da violência em busca da segurança. Não é a toa que o uso dos drones provoque uma sensação de covardia, muito parecida com o que causa as ações terroristas. É compreensível a crescente desaprovação, ódio e ressentimento das populações no Paquistão, Iêmem e Afeganistão, que se sentem à mercê de mais um inimigo oculto, que não corre nenhum risco iminente na atividade de levar a cabo sua operação de eliminação. Isso, para não falar, no controle contínuo e ameaçador de tudo e de todos, que seu uso possibilita.
Antigamente as sociedades tratavam a guerra como arte e honra. As guerras eram declaradas e a campanha militar envolvia colocar-se em risco para fazer valer uma ideia, do estado ou da nação, que se defendia em oposição à outra. Nada parecido com o “soldado” que acorda de manhã cedo, toma seu café, vai para o trabalho, senta-se numa mesa de operações confortável, mata criminosos, inimigos e suspeitos, sem rosto, sem nome, que estão a milhares de quilômetros. Depois de fazer uma pausa para o almoço, volta à carga durante a tarde em sua guerra invisível antes de ir para casa para jantar com a família e discutir as estripulias dos filhos na escola.
A ideia do caráter asséptico da guerra à distância foi uma grande preocupação quando foram desenvolvidos mísseis e a bomba atômica. A certeza da aniquilação em massa, mal ou bem, serviu para frear e dissuadir um conflito maior a partir do momento que muitos detinham a tecnologia. Os drones, ao conterem essa ideia de atingir alvos precisos – mais policialescamente do que belicamente – vão redesenhar os conflitos e as regras da segurança internacional. Um novo equilíbrio de poder que pode levar mais à instabilidade do que à estabilidade. Especialmente quando tal tecnologia cair nas mãos dos grupos extremistas aos quais se destinou.

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PAULO DELGADO

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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