A locomotiva do sul

A locomotiva do sul

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 23 de Fevereiro de 2014.

Com o Big Mac mais caro do mundo, trezentos por cento de diferença de preço para a Indonésia; único país dos BRICS onde não existe classe executiva em vôo doméstico; quase 12 milhões de passagens nacionais e internacionais compradas ano passado; crédito abundante; crescente paraíso de smartphones, tablets e automóveis, o Brasil tirou a exclusividade dos ricos no consumo do dia a dia.

Quando a crise financeira estourou na Ásia no final dos anos 90, uma maré de maus resultados econômicos passou furiosa através da América Latina. A crise teve um impacto severo. Anos antes a crise da dívida que marcou os anos 80 passou, por exemplo, incógnita no grupo dos emergentes asiáticos (enquanto por aqui vivíamos uma década perdida, lá eles viviam entusiasmante crescimento). Ela também não impediu a manutenção de uma trajetória do PIB entre os países avançados (nossos principais fornecedores de crédito e, teoricamente, atingidos diretamente por pressões de calote).

A crise da nossa década perdida era periférica, tinha cara e jeito de América Latina, como passou a vigorar a fama. Fama dura de reverter. E não diferente também foi a realidade. Quando veio a próxima grande crise – justamente a asiática – a América Latina foi a que se recuperou mais lentamente numa comparação também com a Ásia emergente e os desenvolvidos. Apesar da grande parte dos seus países terem passados por reformas muito importantes anos antes, continuávamos presas indefesas dos humores erráticos das finanças globais.

Quando em 2008 estourou nova crise, se o padrão histórico fosse a única ferramenta de previsão, era de se esperar que mais uma vez a resistência e a recuperação latino-americanas fossem inferiores às de outros grupos de países. Especialmente porque em muitos aspectos o que veio foi uma crise de violência quase ímpar no pós-guerra. E num mundo cada vez mais interdependente importaria ainda menos que sua origem estivesse além-mar. Mas, agora não, essa crise não pôs a América Latina de joelhos.

De fato, o continente se saiu bem em termos de resistência e dá mostras de estar indo bem também no quesito recuperação após o choque. É claro que tudo isso é relativo e não dá nem de longe espaço para autocomplacência. Mas comparações são as ferramentas para medir a qualidade de políticas e a novidade desse período é que nosso continente está se saindo melhor do que os países desenvolvidos e não está perdendo feio nem para a fina flor dos países emergentes que se encontra na Ásia.

Recentemente foi lançado em Washington um livro de um ex-presidente do Banco Central do Chile, José de Gregório, que se propõe a narrar essa história. Recebeu uníssona aclamação dos principais condutores e estudiosos de política monetária do mundo. Stanley Fischer, que hoje serve ao FED, após reger com invejada maestria o Banco Central de Israel , vê na história contada uma mostra de como políticas boas funcionam quando consistentemente implementadas. Fischer, que é há tempos um dos profissionais mais cobiçados nesse restrito mercado de banqueiros centrais, tem ascendência direta sobre as rédeas que guiarão a volta dos EUA à normalidade monetária. O caminho e a velocidade da marcha de um tipo de normalização inédita como essa podem ter efeitos desestabilizadores fortes nas economias latino-americanas. Afinal, a história é o único laboratório para políticas macroeconômicas e cada país que se cuide é o que ela ensina.

Gregório aponta em seu livro que a segunda perna que sustentou o novo viço econômico do continente foi a “sorte” de ter passado uma boa década com termos de troca favoráveis. As políticas para industrializar a América Latina nos levaram a venturas e desventuras que são a cara de nosso século XX. Chegamos ao século XXI sem conseguir bem resolver o problema, mas com a “sorte” de que as matérias-primas passaram a valer mais devido em grande parte ao ressurgimento dos bilhões de asiáticos que baixaram o preço das mercadorias e começaram a pagar cada vez mais caro por matérias-primas que não têm. Chame-se a isso de sorte, mas boa gestão da sorte tem mérito.

A demonstração da faceta consumista de desenvolvimento em um continente que está acostumado a bolso vazio é bom sinal, mas contém alertas. Tudo o que se conquista baseado em boas políticas é passível de ser perdido caso não se saiba bem aonde ir. As pessoas normalmente demoram muito para tomar boas decisões. Nações não são diferentes. Mudanças são resistidas bravamente por interesses bem instalados e o marasmo dos ciclos de poder sempre presos a triste armadilha de imaginar que não vai ter crise por que os céus não querem.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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