A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA

A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA

Correio Braziliense e Estado de Minas, domingo, 10 de Janeiro de 2016.

Nenhuma força do mundo transforma ódio em amor. Nenhum exército torna sensato um fanático. Nenhuma riqueza mal distribuída gera paz e prosperidade para a nação que a estimula. Nenhuma força que há nos livros, nas orações, nos estudos, no comércio, nas negociações diplomáticas é mais forte do que a força da injustiça e da violência sem sentido sobre as costas de alguém. Nenhuma fortuna pode ser considerada um dom de Deus se usada contra inocentes.

Hoje, no Cairo, a Liga Árabe reúne os chanceleres de seus países membros para discutir a crescente tensão entre a Arábia Saudita, país considerado solo sagrado da religião islâmica, onde nenhum dos seus habitantes pode cultuar outra religião publicamente, e o Irã, o mais agitado país muçulmano, onde árabes são minoria. Ontem, foi o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que, reunido em Riad, enfrentou a mesma pauta que mistura política, riqueza, religião e fanatismo. O CCG há tempos se ressente da significativa melhora nas relações do país persa com o ocidente e tem agido para impedir a normalização da situação internacional de Teerã. A Liga Árabe, por sua vez, na última ocasião que manteve encontro como o de hoje, o fez para criticar a ingerência iraniana em assuntos internos de seus países. No meio disso há o horror perpetrado pelo ISIS, que deseja o extermínio dos xiitas, mas também a capitulação dos sunitas, sob seu jugo.

Retórica de fim dos tempos poucas vezes esteve tão forte por ali. Uma paixão sem futuro construída por dramas das últimas décadas, invariavelmente manchados de petróleo, que faz famílias bilionárias da noite para o dia.

Era agosto de 1990 quando um megalomaníaco Saddam Hussein, animado pelo culto à sua personalidade imposto sobre o povo iraquiano e pela errônea interpretação do que o mundo pós Guerra Fria oferecia, decidiu anexar o Kuwait. O motivo principal era o petróleo. Por um lado, Saddam acusava o Kuwait de depreciar o preço da commodity ao elevar sua produção, prejudicando assim a fonte de renda iraquiana. Por outro, desejava se apossar do pequeno país para deter 20 por cento das reservas internacionais do óleo arcaico. E ameaçava não parar por ali.

Bush pai montou uma coalizão militar de 35 países. Se aliou a Arábia Saudita e selou a presença militar americana em seu solo. Mas  hoje, vendo Washington flertar com Teerã, a teocracia saudita endurece mais contra a agitação religiosa.

Um dos pilares do islamismo, a peregrinação à Meca, tinha especial significado em 1979. Afinal, no calendário islâmico, em 20 de novembro daquele ano se iniciaria o décimo quinto século do Islam. Para a monarquia saudita, senhora do acesso a Meca, a cidade mais sagrada para os muçulmanos, havia uma importância extra. Meses antes o Irã tornara-se uma República Islâmica xiita, com pretensões expansionistas. Para desespero da monarquia saudita aconteceu o impensável. Um grupo sunita local, que acusava o reino de corrupto, submisso ao ocidente e pecador por não observarem a Jihad, invadiu a Mesquita Sagrada de Meca. Uma mortandade de quase mil, a maioria de peregrinos. Dali para frente, a intolerância ao dissenso recrudesceu na Casa de Saud, os monarcas sauditas.

Passados muitos anos de uma escalada que segue o mesmo enredo, o chanceler saudita atual justifica a pena de morte aplicada ao clérigo xiita Nimr Baqir al-Nimr, dizendo-o um terrorista mais político do que religioso, tanto quanto Osama Bin Laden o fora. Segundo parecer da Human Rights Watch, o país que pratica “discriminação sistemática contra minorias religiosas”, condenou al-Nimr com base sobretudo em suas “críticas pacíficas a respeito de oficiais sauditas”.

Para complicar, síntese do poder sunita atual, a Arábia Saudita está em polvorosa com a Guerra na Síria. Uma vitória xiita ali aumentaria o poder do expansionismo cultural iraniano, com desfecho imprevisível.

Mas é o vai e vem do preço do petróleo o principal combustível da fúria. Dias atrás o barril foi abaixo de 33 dólares, algo inédito em 11 anos. Isso por conta de uma superprodução americana nas jazidas de xisto, pelo cavalo de batalha que a própria Arábia Saudita faz bancando o preço baixo e, agora, com a reentrada do Irã em vários mercados liquidando estoques acumulados durante anos de embargo.

Enquanto os líderes mundiais encastelam-se em resoluta decisão de manter o mundo encarcerado ao petróleo, custe o que custar, o sofrimento civil aumenta na região. Em nenhum outro lugar a maldição da abundância ocorre de maneira tão triste como no controverso oriente médio.

 

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 PAULO DELGADO  é  sociólogo

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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