A MISÉRIA DA IMIGRAÇÃO

A MISÉRIA DA IMIGRAÇÃO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 11 de janeiro de 2015.

Já que não há amor suficiente para fazer o mundo melhorar outras virtudes são necessárias para entender que o contrário de terrorismo é vigilância e paz. Intolerância, populismo e crise econômica se alimentam de maneira catastrófica ameaçando a livre circulação na Europa. “Meu marido se amaldiçoa da miséria de sua condição material”. “Minha mulher está certa de que jamais será o que poderia ter sido”. A confusão entre problemas materiais, questões pessoais e afirmação de credos põe o continente com os nervos à flor da pele. A arrastada crise econômica ocorre ao lado de uma série de conflitos armados próximos às suas fronteiras. Ambas as situações provocam, ao mesmo tempo, ondas migratórias e um rechaço dessas migrações. Todos estão se sentindo menos seguros, sem imaginação ou senso de justiça.

A Alemanha, que recebeu em torno de meio milhão de imigrantes ano passado, tem até aqui resistido a sacrificar esse valor primordial da União Europeia. Os dois outros principais países do bloco, Reino Unido e França, têm tido mais dificuldade para evitar avanços da intolerância amedrontada. O governo socialista da França até discursa em defesa da imigração, mas não consegue fazer calar o cão que ladra pela noite. Pregado em si mesmo e sem pertencer a nada, perdeu-se nessa época de fervor onde o fanático executa humoristas e mata feridos na calçada de Paris. A esquerda parece que não sabe mais a origem de suas aflições. Sem paixão pela liberdade de governar com coerência transferiu a paixão por princípios para seus adversários.

Mas o terrorismo, embrulhado na imigração, torna silencioso o moderado vendendo o fanatismo como necessidade das pessoas. A nova ordem que prega é a da superioridade moral do “justo”. E justo é somente ele. O fanático não devia fazer parte dos pratos da balança da controvérsia entre os homens. Seu mito é reforçado pelo fato de governos gastarem tanto com segurança para entrega-la à superioridade específica dos inimigos da lei.

Enquanto os alemães questionam a sustentabilidade da União Europeia em termos da gestão econômica de cada país membro, britânicos e franceses há tempos andam botando a culpa das dificuldades de caixa no grau de abertura de suas fronteiras. Estão se tornando de tal forma anti-imigrantes que fizeram de uma controvérsia administrativa uma explosão ideológica. Isso talvez explique porque a Alemanha diz que a crise é um fenômeno externo e não de seu modelo social.

Todavia, o cenário turvado para o imigrante existe na Alemanha também. O grupo Patriotas Europeus Contra a Islamização do Ocidente (PEGIDA) arrasta cada vez mais gente para as ruas. Angela Merkel, em sua mensagem de ano novo, repudiou com veemência o fanatismo do grupo. Com amplo respaldo eleitoral, Merkel consegue ser mais dura contra a intolerância cultural e religiosa do que os líderes da França e da Inglaterra. Dois fracos que só sabem contemporizar diante do tigre na sala que é o avanço do voto radical pregando o fim do projeto europeu.

Paris e Londres ainda não se deram conta do mal que a politica dos “puros” espalharam pelo mundo e que a tensão que provocam é pura violência. Para piorar não fazem conta de seus gastos ajudando a desmoralizar a bandeira da União Europeia. A Alemanha sob Merkel tende a ser solidária com a vontade de contenção de gastos expressas pelos britânicos. O problema é que Cameron manipula a questão da imigração de tal forma que não cansa de ameaçar com rompimento. Assim, isolado, ele conseguiu se tornar líder de um país cada vez menos influente. Com a facilidade com que 3 fanáticos ensanguentaram Paris os intolerantes do Canal da Mancha ficam mais engraçados pois é um monumento à estupidez associar tal violência ao fato de alguém ser estrangeiro.

Na quarta-feira, enquanto Merkel pousava em Londres para sua visita relâmpago, histéricos covardes dizimavam a redação do jornal de humor parisiense, Charlie Hebdo. Merkel e Cameron continuaram sua agenda e foram ao Museu Britânico ver a celebrada exposição sobre a Alemanha. Intitulada “Memórias de uma nação”, a exposição conta 600 anos de história através de 200 objetos. De edições antigas de livros dos irmãos Grimm a cartazes da época da queda do Muro de Berlim, de uma bíblia de Gutemberg a uma escultura de Ernst Barlach que traz um anjo pairando em memorial aos mortos da Primeira Guerra.

Como concordaram Cameron e Merkel, “onde existe vontade, existe um caminho”. Que os democratas trabalhem juntos. Vontade, no momento, é saber perceber a vinculação do imigrante com a vida, a família e a terra. Enquanto o terrorista quer companhia para a morte no seu céu particular.

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Paulo Delgado é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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