A Primeira Morte de Obama

A Primeira Morte de Obama

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 28 de Julho de 2013.

Sexta-feira, 19 de julho passado. Os jornalistas aguardavam mais uma coletiva à imprensa conduzida pelo porta-voz da Casa Branca quando o próprio presidente Obama entrou na sala anunciando que falaria  sobre um assunto que agitava os Estados Unidos.

Obama explicou que vinha acompanhando o debate nacional sobre o caso do jovem Trayvon Martin – assassinado na Flórida no início de 2012 e cujo assassino foi julgado inocente seis dias antes.  E que sentia ser seu papel dizer o que pensava a respeito do caso e do que se passava no país em reação ao veredicto que gerou revolta em muitos.

São muitas as técnicas que transformam políticos em atores e a política em espetáculo. Mas são poucos os chefe-de-estado capazes de ir ao centro sagrado dos valores da sociedade. E em menor número ainda os dispostos a decepcionar estratos superiores e não conspirar contra a credulidade das pessoas comuns.   Obama falou com sensibilidade e autoridade sobre um tema que causa forte emoção e destemperadas reações através do país. E as coincidências da vida lhe permitiram que também pudesse falar com íntimo conhecimento do assunto. Obama, que nunca deixou escapar pretensões favoráveis a qualquer símbolo especial ou status derivado de sua vitória eleitoral, sempre se furtou a carregar nos discursos sobre as divisões raciais que persistem severas nos EUA.  Chegou mesmo a evitar o assunto – razão pela qual foi repetidas vezes criticado por grupos mais engajados que o viam tentar parecer um presidente pós-racial – mas dessa vez não fechou os olhos para o clamor social que atravessa a sociedade.  Por conta de um fato específico falou a respeito do preconceito que existe contra negros no país.  E da maior fragilidade social que caracteriza a vida dos jovens negros numa sociedade tão opulenta, mas ainda bastante segregada.

Sem qualquer idealização negativa ou pretensão de praticar modéstia ou “desempenhar” afeto diante da tragédia chamou a atenção para o fato e sua verificação.  Disse  que estava ali como chefe-de-estado para falar do contexto – histórico, social e legal – no qual estava inserido o caso. Afinal, se tanta comoção e ira abalavam parte da sociedade certamente havia uma verdade maior ali. Uma questão que desnudava pontos em que as instituições sólidas do presente precisavam providenciar uma resposta e vislumbrar um caminho para uma “União mais perfeita” ainda que não perfeita.

Uma União em que ainda boa parte das áreas pobres é composta majoritariamente de negros. Pessoas que se acostumaram ao longo da vida com maior exposição à violência do que o resto da população. Violência gerada por negros mesmo, já que em maior estado de penúria  carregam sempre a impressão de que os caminhos do sucesso social lhe são sempre mais difíceis. E também contra negros, que acabam carregando o estigma de serem violentos e toda uma série de preconceitos inculcados perversamente durante uma história de segregação que foi oficial até poucas décadas atrás.

“Trayvon Martin poderia ter sido eu há 35 anos”, disse Obama, mortalmente ferido. E foi além, sem procurar esconder a angústia das lembranças nunca abandonadas, ao revelar que raros são os negros que nunca foram tidos como suspeitos e seguidos dentro de uma loja, ou que não viram as portas dos carros serem trancadas quando se aproximam ao atravessar uma rua, ou ainda que não presenciaram a sensação de desconforto e certo desespero de senhoras que se agarram às suas bolsas quando tem de dividir o elevador até terem a chance de sair dali. “Não quero exagerar (com esses exemplos)”, mas “eles ocorrem frequentemente”, lembrou.  Marginais ou marginalizados, Obama sabe que não é uma questão filosófica ou científica  abolir a disciplina psíquica a que estão submetidas as vítimas de preconceito. É uma decisão histórica de quem quer ser melhor do que o passado.

O preconceito contra Trayvon Martin é que o fez suspeito por andar a esmo pelas ruas do condomínio onde ele estava e onde levou um tiro no peito. Não cometeu nenhum crime, mas seu assassino não achou assim, protegido pelo costume. A forma insanamente fútil como  acabou a vida do jovem, a poucos quilômetros da Disney World, não foi suficiente para que o júri visse no assassino um culpado, e isso enfureceu boa parte do país trazendo à tona a discrepância entre conduta e aparência sob a máscara da igualdade perante a lei. Obama, que viu disparidade racial na aplicação da lei, perguntou se o júri consideraria igualmente correto que, hipoteticamente, Trayvon atirasse em legítima defesa por ter se sentido ameaçado ao ser seguido por um desconhecido?

O que Obama quis dizer é que a cortina da janela da democracia americana é estampada só de um lado. E que esse lado mais bonito fica para fora da janela do país.

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PAULO DELGADO

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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