A Prudência e as Crises

A Prudência e as Crises

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 7 de setembro de 2014.

Seis exatos anos após a crise econômica de 2008 a vida e a história continuam repletas de tortuosidades naturais. Mas continua a haver uma lógica nas coisas previsíveis, aquelas que servem para medir o risco e prever o curso do que vale a pena observar. Especialmente quando é possível aprender e respeitar uns com as crises dos outros. São sempre frustrantes as tentativas de querer governar como se nunca houvesse precedente melhor no mundo. Europa, EUA, Ásia continuam bons de copiar, não só de visitar. E quem chega mais perto da fronteira tecnológica e gerencial dos ricos consegue se reorganizar melhor para ajudar os pobres, porque, mesmo no melhor dos mundos, sempre haverá o inesperado, motivo pelo qual as crises sempre voltam.

No entanto existe um tipo de país onde não há ação prudencial para salvar o capitalismo dos seus erros, pois são esses erros que são oferecidos a aliados políticos para serem “consertados” e não abolidos. O que acaba piorando tudo e criando outras crises. E é por ai que surgem as infelizes formas de tornar a crise regra, ao invés de exceção. A política social, por exemplo, que em todo o mundo civilizado é a forma de tratar humanamente as consequências negativas do capitalismo competitivo, na América Latina é usada para atacar o capitalismo tirando do apoio aos pobres e empobrecidos a sustentação e a autonomia econômica. Todas as grandes políticas de inclusão social do Estado de bem estar social europeu nasceram do movimento caritativo das famílias cristãs. Mesmo aquelas criadas para criar um contraponto às ilusões socialistas. Onde exista o populismo o Estado toma emprestado da bondade humana a filantropia, impondo um cálculo político ao significado da caridade. O reformismo social vira um ritual de coisas atrativas oferecidas em cerimônias seculares envolvidas em entusiasmos personalistas. Da dentadura aos pombais habitacionais na periferia das cidades a preocupação com a questão social abandonou suas bases morais e entrou no mundo das trocas de lealdade política com os necessitados, sem que nada corresponda à necessidade de mudar a realidade econômica. Políticas sociais desse tipo só fazem agravar e adiar o problema que pretendem tratar. Quando tudo é evento, tudo vira vento. E crises só fazem abrir a janela para tragar o insustentável.

Toda época tem seu grande pensador, toda crise gera uma grande nova teoria. Em 1935, John Maynard Keynes finalizava a obra, muito inspirada na Teoria dos sentimentos morais de Adam Smith, que defende a ideia de que o capitalismo em si não gera os valores que tornam possível seu próprio sucesso e sustento. Valores como confiança, fé, honrar compromissos, planejar o futuro existem mais nas pessoas e na espiritualidade do que na economia, mas se não forem transpostos para a economia não produzirão nenhum efeito ótimo na vida das pessoas em sociedade. Sem teoria e desamparados de valores o rico e o pobre adoecem sob Estados paternalistas e políticas fisiológicas. Desde que o Lehman Brothers quebrou em Setembro de 2008 não há ainda um grande pensador capaz de apresentar a forma para superar essa patologia do bem que são politicas sociais e de crédito para pobres e para ricos. O que fez da crise atual um laboratório de doação pública para todo tipo de benefício privado. Paul Krugman, que é um dos que se esforçam para chegar próximo a essa síntese não convence nem quando apela para analogias com invasões extraterrestres para defender a importância da expansão de estímulos fiscais.

Diz a sabedoria popular que quanto menos se idealiza, menos se decepciona. A lógica da prudência entra em conflito, entretanto, com os desejos políticos que ofertam o melhor dos mundos, imediatamente. Como são expectativas positivas que impulsionam o crescimento das nações ainda podemos esperar que um dia a sociedade não mais concorde que o uso irracional e sem planejamento da economia continue a ter o direito de somente ter que apresentar no futuro a conta da euforia do presente.

Há países pobres, países ricos, e outros sentados à beira do caminho. A armadilha da renda média e do tributar mais para subsidiar mais é construída por más políticas. Os países em desenvolvimento não conseguirão mudar de mundo, pois não se dedicam a compreendê-lo. São desinteressados da reflexão conceitual. Não veem a estabilidade como condição essencial do progresso. Não raciocinam sobre evidência.

Evitar escolhas difíceis por razões políticas é o mais puro exercício da má-fé. No modelo politico de Estados retrógrados a dissidência e o pensamento independente são teórica e praticamente perseguidos e inaceitáveis. As hierarquias se formam com temor, obediência e inteligência subjugada. Caminhando por vias imprudentes sem audácia sobre o futuro.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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