Bancos de Desenvolvimento

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 21 de Abril de 2013.

Quem confia em seu próprio coração é um tolo, alertava Salomão, certamente sem ser ouvido. Não duvidar ou desconfiar de nada, em grande medida, predomina na ação humana e muitos dos problemas e desordens que vivemos podem ser colocados na conta do auto-engano. Pascal exagera ao assegurar que existem somente dois tipos de homem: os íntegros que se consideram pecadores e os pecadores que se consideram íntegros. Nada disso é estranho à análise das decisões das Instituições, muito menos do papel dos Bancos de Desenvolvimento e suas escolhas.

No meio dessa semana o Diário do Povo, que é para a China o que o Pravda foi para a União Soviética e o Granma é para Cuba, trouxe na primeira página um artigo enaltecendo as empresas estatais e sua importância no modelo econômico do país. Atualmente, das 500 maiores empresas da China 63% são estatais e 54 dentre elas figuram entre as 500 maiores do planeta. Há, no entanto, enorme tensão entre grupos dentro da burocracia chinesa a respeito dessa profusão de estatais gigantescas: muitos líderes já manifestaram a necessidade de reformá-las. Não custa nada lembrar que apenas três décadas atrás 100% dos negócios do país eram estatais. A China é por definição uma economia em transição. Saudavelmente, ela não fez a transição da forma abrupta, atabalhoada e visceralmente corrompida como fez a Rússia, mas é fato que sua transição ainda não acabou.

Mas quando se fala do modelo econômico chinês não são estatais que vêm à mente da maioria das pessoas, mas a enxurrada de produtos que o país exporta. E aí vale notar que mais de 50% do total das exportações chinesas são realizadas ou por multinacionais estrangeiras, ou por empresas que recebem investimentos dessas multinacionais. Ao longo das últimas décadas, investidores estrangeiros estabeleceram no país uma infinidade de joint-ventures não só com o nascente capital privado chinês, mas também com subsidiárias das estatais: transferindo tecnologia para o país desde a fabricação de bonecas até carros e aviões. O terceiro ponto que caracteriza marcadamente o modelo chinês é que o sistema financeiro é monopólio do Estado. O governo tem discricionariedade total sobre o rumo dos investimentos do país, seja pelos bancos comerciais, seja por seus mastodônticos bancos de desenvolvimento. Em especial o Banco de Desenvolvimento da China (BDC), que é por sinal, em ativos, o maior banco de desenvolvimento do mundo (maior inclusive do que o Banco Mundial).

Também maior do que o Banco Mundial é o nosso BNDES, terceiro maior banco de desenvolvimento do planeta, com ativos totais de R$ 715,5 bilhões, ou 16% do PIB brasileiro. Entre os dois vem o alemão KfW, que detêm 442 bilhões de euros em ativos (o equivalente a uns R$ 400 bilhões a mais do que o BNDES). Tanto o BDC, quanto o BNDES e o KfW, são mecanismos super diretos das políticas econômicas decididas por esses países através da escolha dos seus parceiros preferenciais. Após a crise de 2008 foram instrumentos para a manutenção dos investimentos nesses países, de tal maneira que outros governos do mundo passaram a criar seus próprios bancos de desenvolvimento.

Mas se todos atendem pelo mesmo nome, por visarem ao desenvolvimento e imaginarem que sua ação visa benefícios derivados de certa planificação da economia, suas linhas principais de atuação variam de país para país. Os chineses, por exemplo, continuam em crise existencial para conciliar o avanço da transição com a solidificação de sua legião de estatais que avançam mundo afora na estrada cortada e pavimentada pelo BDC. No caminho vão servindo a dois senhores, o público e o privado, num esforço para incorporar valores de mercado. Mas, em tais operações, onde são patentes os desvios do ambiente competitivo, são criados atritos e desconfianças no sistema internacional. Não está claro se estão dispostos a diminuir a ingerência do governo sobre as estatais, nem se serão capazes de convencer o mundo desse desejo. O fato é que a predileção por monopólios, conglomerados e empresas gigantes pauta boa parte das políticas do país, que tem visto, aliás, um grande aumento da desigualdade social, enquanto o BDC despeja dinheiro em operações de retorno incerto – e não vai só, mas arrasta junto todos os bancos chineses. Em tempo: as duas maiores empresas do mundo atual são o Banco Industrial e Comercial da China e o Banco de Construção da China.

As necessidades econômicas que movem os bancos, os interesses comerciais que movem as indústrias, o papel da simpatia na condução da decisão política, as necessidades humanas de mercadorias e bem estar, ajudam muito a entender os dilemas e as escolhas do planejamento econômico e a opção, de muitos países, pelos bancos de desenvolvimento.

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PAULO DELGADO

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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