Caos e Mágoa na Turquia

Caos e Mágoa na Turquia

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 26 de junho de 2016.

Istambul, a mítica Constantinopla, é, mais do que nenhum outro, o local geográfico, histórico, filosófico e cultural onde o Ocidente se separa do Oriente. Separa, mas não se despede. Ou assim não deveria ser.

Tal situação combina glória e fardo. Apesar de classificada como país não-desenvolvido e não conseguir projetar poder e influência para além de suas fronteiras, a Turquia é um dos poucos Estados-Nação do mundo que carregam a distinção de representar a sucessão e a representação moderna de uma civilização antiga. Que dominou terras para muito além da capital, subjugando vários povos às instituições turcas. Posicionada no centro do tabuleiro mais complexo da política mundial, preserva sua autonomia, tendo posturas, de tempos em tempos, de destemido confronto com potências do mundo atual. Não titubeou na decisão de abater um caça russo que cruzou sem autorização seu espaço aéreo. De pé, toca sua relação com os Estados Unidos, diante da guerra que se desenvolve na vizinha Síria. A orgulhosa Turquia dá apoio de acordo com suas condições, muito sujeitas à variação de humor em Ancara. Entre os membros da OTAN, a Turquia figura entre os top 5 de localização mais estratégica, e sabe barganhar com isso. Com o caos atual instaurado em Síria e Iraque, ela é a própria baioneta da OTAN.

Tal poder de barganha, todavia, não consegue garantir a realização daquele que tem sido o principal sonho do país: tornar-se membro da União Europeia. Pleito que vem desde 1987, antes mesmo do Tratado de Maastricht, que tornou efetiva a UE. Já são tantos anos de relutância por parte dos donos do clube em aceitá-la, acompanhados por sucessivas inclusões de outros vizinhos, que o sonho vem ganhando contornos de pesadelo. Com tão grande lista de justificativas desencontradas, contraditórias, dissimuladas, para a não aceitação de sua inclusão, que a iniciativa turca, pensada como demonstração clara de busca por harmonia e estabilidade regional, passou a ser tachada, na mais simpática das análises, como arroubo inocente de um gigante modesto e meio radical.

Rejeitada pela Europa por ter uma população grande demais – que desequilibraria a democracia do grupo – assim como muçulmana demais – o que constitui o cerne da objeção oculta.  Que vem sendo cada vez expressa no bojo do avanço do fundamentalismo agressivo islâmico.  A Turquia, que poderia muito bem ser introduzida, e capturada por uma narrativa que acentuasse sua maior proximidade com o Ocidente, vem cedendo cada vez mais a construções que buscam afirmar sua diferença. A explicação é simples e humana. Trata-se de um país múltiplo que, numa devida circunstância, se sente atraído por um projeto liberal de construção de prosperidade comum. Mas confrontado – dentro de uma orquestração supranacional, liberal o suficiente para esquecer rixas do passado e se ater aos valores mais altos da humanidade – por quem se mostra inacessível a você. Por conta justamente de suas características. Qual sentimento brota aqui?

Diferente de diversos vizinhos que vão sendo chamados para compor o clube, percebidos como menos relevantes e menos “diferentes”, ela é rejeitada, apesar de solicitar, com base na condição mais objetiva que oferece, que é sua localização geográfica.

A Turquia, com seus mais de 75 milhões de habitantes, pela vacilação da EU em aceitá-la, vai se tornando presa do discurso nacionalista.  Daí a preocupação atual com a preponderância de narrativas islâmico-turco-nacionalistas nos eventos terroristas do país. São faísca em barril de pólvora. A atual distração curda não pode servir aos interesses de quem joga um jogo duplo com as verdadeiras e majoritárias intensões do país. As quais são, sobremaneira, de alinhamento com o ocidente, a despeito de qualquer reticência política.

Em livro recente, o historiador espanhol José Álvarez Junco ensaia uma síntese do uso que se faz do nacionalismo através do mundo. Os espanhóis são bem interessados em tal assunto dada a fragmentação do país. A Turquia se agarra à narrativa nacionalista fincada nas profundas raízes cultivadas por Mustafá Kemal, denominado Ataturk (pai dos turcos), que imprimiu a ideologia que quis quando dominou o país. Suas  reformas miravam no modelo ocidental. O atual governo do controverso Recep Erdogan flerta com o extremismo, muito por conta da rejeição europeia ao país. Parece não ter interesse em ir além de arroubos nacionalistas que lhe garantam perpetuação no poder sobre uma sociedade magoada, para dizer o mínimo.

E a Europa, a ponto de ser desdenhada pelos britânicos, deveria correr para corrigir sua negligencia e abraçar a Turquia, que durante séculos hospedou a Roma do Oriente.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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