CAUSA E MAGIA DO BRICS

CAUSA E MAGIA DO BRICS

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 13 de Julho de 2014.

 

Começa amanhã em Fortaleza a sexta cimeira do Brics.

Apesar das dúvidas que esse foro sempre levantou, há a promessa de buscar unidade de uma instituição com um rosto mais nítido do que o atual. A opção é começar a enfrentar a área financeira gerida de forma psicológica e como romance de aventura. Há exasperação e confronto com a realidade do mundo. Inclusive, foi a deterioração da interlocução dos países do grupo com as principais potências não participantes que renovou o senso de oportunidade em seus membros. Seus países, por razões diversas, veem a necessidade de marcar contraponto às entidades que regem a governança mundial.

O Brics é uma plataforma para expressar insatisfação com qualquer aspecto da ordem vigente que destoe do desejado por seus membros. E que membros! China, Índia e Rússia são os mais agitados elefantes nessa loja de louças que é o planeta. Mesmo sem uma visão de compromisso total pelos infortúnios do mundo, o que dá certa uniformidade ao grupo é o fato de serem potências econômicas emergentes, tentando sair da margem. E poderem ocupar lugar central nas decisões que afetam o planeta e a própria manutenção da trajetória ascendente de cada um.

Nas últimas décadas, o pragmatismo da visão americana vitoriosa e hegemônica equacionou poder com dinheiro. E o mundo passou a ser, de fato, gerido pelo grupo das maiores economias. Nada de paixões ditando os desígnios humanos, mas, sim, os interesses. Senso prático pode dar menos vazão a tragédias do que paixões, é a maquinação filosófica que oferece o capitalismo sem culpa.

O momento atual é de insegurança sobre quais são os caminhos institucionais para pôr as mãos em parcelas proporcionais de poder. Isso deixa fragilidades e jogos de cena aparentes. A Rússia, cujo realismo regional não admite poesia, só foi convidada à mesa dos ricos quando abandonou o comunismo. A China, país onde ninguém é impossível, escreve sua história sem abandoná-la e, assim, continua com dificuldades de entrar pela porta da frente dos encontros dos garantidores da ordem mundial. É uma punição com sabor de dúvida. Afinal, a desordem asiática parece uma nova ordem. Todo democrata que ainda não renunciou aos prazeres da opressão vai à Ásia e volta maravilhado com a autoridade do Estado arbitrário.

Se por um lado há desconfiança sobre que paixões movem os emergentes, por outro é compreensível que exista impaciência com a morosidade da adaptação do poder multilateral. Afinal, é inegável problema que a China, já a segunda maior economia do mundo, deve se tornar o país com o primeiro PIB do planeta e continuar sem esse selo de país normal, que participa de todas as reuniões em que os grandes discutem as questões mais relevantes. E isso é um tanto quanto bizarro, pois todos sabem que, cada vez mais, conversas ao telefone entre líderes chineses e americanos valem mais do que qualquer encontro de cúpula de dezenas de emergentes caóticos.

Mesmo considerando a discrepância e a agenda mais controversa dos demais, o Brasil e a África do Sul nada têm a perder participando do grupo. Mas isso não quer dizer que faça parte de uma visão coerente sobre o que esses países vislumbram para si no tabuleiro global. Brics é um meio, não um fim. Deveria ser usado como mecanismo de pressão pragmática. Poderia ter mais eficácia se fosse abolido o estado emocional afro-latino e seu costume de ver o ato de governar como ficção ou imitação da realidade. Afinal, a ideia é arrumar melhores posições dentro do aparato atual de governança global. Até mesmo reformá-lo.

Sem instituições capazes de tranquilizar as trocas mundiais, a economia global ganharia uma instabilidade insuportável. Burocracias internacionais são males necessários. O desafio é conseguir equilibrar contestação com ações que mostrem boa determinação, mas tomando cuidado para não se tornar um clube dos insatisfeitos. Por isso, é bom focar em finanças nesse início. Apesar de ser difícil prever a operacionalidade das propostas e ainda mais o seu sucesso.

No entanto, ao menos é um assunto que pode dar retornos práticos e não ultrapassa o que tem sido a regra de ouro do grupo: não se metem em assuntos internos dos outros. Se conseguirem manter esse cordão de isolamento, podem se tolerar tempo suficiente para alcançarem boas coisas juntos. Mas isso não é necessariamente muito simples. Índia e China, especialmente, têm histórico inacabado de estranhamentos e de suspeita. E os demais, pouca história de conhecimento mútuo. Acima de tudo, fora reformas pontuais, não há no Brics uma visão para um mundo melhor, mas, sim, um meio para conseguir situações que melhorem suas próprias realidades. Não conseguirem ir muito além disso é estranhamente sua causa e sua magia.

 

Paulo Delgado é sociólogo.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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