Coréia sem Norte

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 14 de Abril de 2013.

Passos perdidos. A tirania torna tudo vulgar e passa da conta muito rapidamente. Considerando todas as possíveis maneiras de se medir a razoabilidade de um sistema político, tanto de um ponto de vista doméstico quanto internacional, a longevidade do regime norte-coreano já está muito além do tolerável.

Passos trocados. A política torna todas as estultices explicáveis e, estas, só se tornam preocupantes quando o fracasso econômico busca salvação no aparato militar. Perder o sono com a Coreia do Norte só se justifica por sua localização geográfica. O elevado limite de tolerância ao regime é fruto, simplesmente, da falta de acordo sobre o seu fim que prevalece entre os países com interesse na região.

Só a compreensão da estupidez geopolítica remanescente dos tempos da Guerra Fria – origem das duas Coreias: do Sul “americana”, do Norte “soviética”  – vê uma função para a estridência da Coréia do Norte.  É a funcionalidade das ditaduras para o equilíbrio do sistema internacional que permite a Kim Jong-un repetir os passos do pai e do avô, nessa saga insólita para perpetuar uma família no poder, às custas da miséria, da alienação e da total falta de liberdade do povo norte-coreano. Mas nas últimas semanas o jovem ditador começou a dar sinais de que é capaz de cruzar essa última linha onde se faz útil e mergulhar no passado absoluto da política.

A maior característica desses regimes de guerra é o segredo. Mesmo os chineses, principais aliados do pequeno país e que têm, entre todos os países, o maior acesso ao que se passa em Pyongyang, dão sinais de não estarem satisfatoriamente a par do que vai à cabeça de Kim Jong-un. Por sua vez os Estados Unidos, que têm a mania de explodir como pólvora, sempre deixam dúvidas se sua presença militar em todo lugar é o resultado ou a causa dos problemas mundiais de segurança.  Nesse ambiente de tensão e falta de comunicação os EUA querem que a China desista de sustentar a dinastia Kim e se prepare para discutir o que acontecerá a partir da queda do regime. Nessa eventualidade, os chineses querem a garantia que a parte norte da península coreana, colada à sua fronteira, não vá engrossar, com Seul e Tóquio, o militarismo de Washington isolando Pequim.

Observadores chineses questionam, cada vez mais à vontade, a racionalidade de se sustentar um regime que “vai cair mais cedo ou mais tarde”, como escreveu o editor do jornal da Escola Central do Partido Comunista pouco após o terceiro teste nuclear ordenado por Pyongyang. Uma linguagem tão diretamente crítica e sem contemporizações colocou o editor em licença remunerada de suas atividades a pedido do Ministério das Relações Exteriores da China. Mas, é inegável, que são cada vez mais presentes as vozes na China contra o regime dos Kim. Uma insatisfação que cresceu quando os chineses se deram conta que o país, da forma que está, é insustentável; e que o jovem herdeiro não tem controle político e autoridade suficiente para levar à frente as reformas que levem à normalização do país.  A última expectativa de Pequim é que os recentes atos suicidas expressem uma tentativa de aumentar a legitimidade, face aos chefes militares, do jovem Kim. O qual então recuaria e mais à frente teria força suficiente para forçar mudanças. Mas se isso é uma estratégia, ela é tão bizarra em seus métodos que só mostra o desespero e o isolamento do regime.

Ao fazer a Coréia do Norte provocar seu vizinho do sul, mais os EUA e Japão de forma tão espalhafatosa, Kim Jong-un tem se mostrado ainda menos previsível e, logo, menos confiável aos chineses do que foi seu excêntrico pai. A paciência e o sangue-frio dos países da região não devem aguentar muito tempo. Porque, descontrolada, a Coréia do Norte deixa de ser uma peça de sustentação da velha geopolítica local;  que já é tão difícil de mexer e não aguenta mais nenhum estorvo para todas as partes.

As provocações nucleares, impulsionadas pelo aparato de propaganda, têm buscado mostrar Kim Jong-un como líder de uma Coréia do Norte disposta a atacar adversários infinitamente mais bem armados. À exceção dos vizinhos que ficam reféns diretos dessas chantagens – agravadas pela expectativa do sofrimento pessoal que um conflito causaria – a verdade é que a maioria do mundo não leva a sério o país. Há quem ache graça dos constantes quiproquós que seus excêntricos líderes arrumam numa necessidade desesperada de aparecer e garantir, numa mesma tacada, o aumento da ajuda estrangeira e a manutenção da legitimidade doméstica do regime.

Porém, o desespero, a inexperiência e a falta de controle interno do furioso garoto Kim pode ter desencadeado um ambiente para mudança real na região.

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PAULO DELGADO

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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