CURIOSO CASO DE HONG KONG

CURIOSO CASO DE HONG KONG

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 30 de novembro de 2014.

Ativistas pela democracia vêm ocupando Hong Kong há três meses. Ao longo da semana que passou distúrbios cresceram na região de Mongkok, com enfrentamento entre policiais e manifestantes. Na Nathan Road, a principal avenida da cidade, não havia ninguém para conversar sem um policial atento por perto. 6.000 deles estão lá estacionados pelo menos até hoje, domingo. A resolução das forças de ordem, embora cuidadosa, é para estancar a capacidade do movimento de paralisar partes centrais da cidade. De fato, uma precaução curiosa, estranha ao repertório policial, de não querer parecer mais forte diante do cabo de guerra travado na poderosa metrópole financeira do Leste Asiático.

Nos últimos dias a polícia prendeu manifestantes e policiais que agiram com força desmensurada. Para todos os efeitos, o longo tempo para uma reação mais enérgica das autoridades tem em grande parte a ver com as inevitáveis comparações entre os movimentos atuais e aqueles que tomaram Pequim em 1989 e que acabaram em grande tragédia na Praça da Paz Celestial.

Estudantes protestando em grande número nas ruas das capitais são situações temidas pelas autoridades em todo o mundo. Mas na China. são o despertar do dragão. Em Hong Kong então, e ainda por cima com a bandeira de eleições livres como carro-chefe, é caso muito interessante por sua tensão iminente que pode explodir em algo novo a qualquer momento. Tudo a depender da forma como o poder constituído reage à sua contestação e à reação popular a essa reação. O mais interessante é o sentido da proverbial praga chinesa endereçada a todos desafetos: que vivam tempos interessantes!

A praga foi popularizada por Robert Kennedy, irmão do presidente John Kennedy e é tão conhecida nos EUA quanto desprovida de elos diretos com qualquer velho ditado chinês. Robert Kennedy que tentava a presidência dos EUA quando foi assassinado por um fanático, assim como seu irmão para o qual trabalhou como Procurador-Geral da República, citou com galhardia a tal praga certa vez em discurso para a União Nacional dos Estudantes da África do Sul. À época, não só a África do Sul vivia em pleno Apartheid, como o próprio EUA estavam imersos nas lutas pelos direitos civis dos seus cidadãos negros. Tempos interessantes de lutas e assassinatos.

Curiosamente hoje em dia, com toda a turbulência que se passa na barra da saia da Pequim cada vez mais imperial, observa-se um autocontrole fantástico de paz na turbulência. Paz essa afetada pela estridência em que acusam um complô propagandístico ocidental de armar o circo para os manifestantes de Hong Kong. Isso num momento em que justamente os EUA vêm passando tempos negativamente “interessantes” com repetidos protestos que nascem de sentimentos de injustiças raciais no seio do primeiro governo dirigido por um negro. Só na Califórnia pelo menos 500 pessoas foram presas nos últimos dias em meio a protestos relacionados ao caso que se passou em Ferguson, no estado do Missouri, centenas de milhas dali. Um policial branco foi inocentado após ter atirado equivocadamente contra um adolescente negro.

Em Hong Kong todo o tumulto indignado não chegou ainda a resultar em tantas prisões. Os protestos americanos são normais dentro da dinâmica social do país do meio do século para cá, mas mostram sinais mais preocupantes do que os relativamente noviços protestos em Hong Kong. No último são brigas de uma sociedade que avança, no outro há o estupor da vida intensificada para nada.

Em 1997 Hong Kong foi devolvido pela Inglaterra à China. De lá para cá sempre manteve enorme autonomia e de fato parece um outro país. Nos termos da linguagem oficial da burocracia de Pequim trata-se de “um país, dois sistemas”. Mas é evidente que Hong Kong é um farol em direção ao qual a China navega. É mais saudável ver Hong Kong como o futuro da China do que o contrário. Com relação a esse sentido, todos concordam. O grande problema se dá justamente no tema democracia. Hong Kong goza de um padrão de escolha de dirigentes mais próximo àquele das democracias ocidentais. Todavia os manifestantes frustraram-se, pois queriam que a partir das próximas eleições em 2017 houvesse sufrágio universal sem restrição de escolhas. Ai é já é demais !, choveram recados de Pequim aos iludidos.

Idealismo e ideologia de lado, boa parte da motivação dos protestos vem de insatisfações do dia-a-dia. A área urbana de Hong Kong tem uma das maiores densidades populacionais do planeta. Um número de habitantes por quilômetro quadrado especialmente discrepante com relação a outras áreas urbanas de alta renda.

Para muitos a saciedade da riqueza deveria ser como o amor verdadeiro. Simples e direto, onde muito pouco, é demais. Mas na Ásia ultrapovoada tudo é pouco, só a multidão é demais.

 

PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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