Diplomacia e matemática

Diplomacia e matemática

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 17 de maio de 2015.

Desembarca terça-feira na Praça dos Três Poderes, em Brasília, o primeiro-ministro chinês Li Keqiang. Doutor em Economia pelas mãos do mago das reformas chinesas Li Yining, da Universidade de Pequim, Li Keqiang, além de ser a segunda maior autoridade do país é quem controla as rédeas da política econômica daquela que é a maior economia do planeta, considerando o valor local de seus mercados. Li faz um tour pela América Latina, bem entendida em Pequim como quintal dos Estados Unidos, na busca de sacramentar bons negócios e por alguma lenha na fogueira que aquece os jogos estratégicos entre as duas maiores potências do mundo. Enquanto isso, os EUA, que privadamente fazem indescritível fortuna no Império do Meio, vão, como Estado, à periferia chinesa com uma agenda cada vez mais militarista. Nessa linha, o Pentágono recentemente ameaçou deslocar uma frota para a região das conturbadas ilhas Spratly, movimento rechaçado pelas autoridades chinesas.
A política americana de contenção militar da China esbarra na reação chinesa de acariciar o lado econômico do ocidente em crise. Mestre-sala da agenda de apaziguamento econômico, Li recebeu mês passado o londrino Financial Times para o que foi sua primeira entrevista a um jornal ocidental desde sua posse como premier em 2013. O elegante Li, que é casado com uma professora e tradutora de literatura inglesa – tendo ele mesmo em sua juventude participado da tradução de uma obra do jurista inglês Lord Denning, carrega com maestria o pendão da construção do tal Socialismo com Características Chinesas trazido à luz por Deng Xiaoping .
Sentados simbolicamente na sala Hong Kong do Grande Salão do Povo, Li usou a entrevista para assegurar que a China não busca alterar o atual sistema internacional. Afinal, desde que a República Popular passou a fazer parte dele ao substituir Taiwan no Conselho de Segurança da ONU no início dos anos 1970 o país tem sido o maior beneficiário das regras do jogo que passou a dominar com maestria. Há muito que se aprender com Li Keqiang e o que ele significa.
Li Keqiang é um exemplo do fantástico esquema meritocrático do Partido Comunista da China. Cria política do ex-presidente Hu Jintao, Li é parte da cota de mandarins provenientes da popular Liga da Juventude Comunista Chinesa. Filho de um funcionário público de baixo escalão de uma província secundária, Li ascendeu até o topo do partido que conta com 87 milhões de membros. Ter sabido forjar boas relações e mantido um sofisticado senso de respeito confucionista também ajudaram, é claro.
No plano externo Li administrou com sucesso os interesses econômicos chineses desde o final da última década em meio a um momento de especial turbulência. Liderando a trinca de mandarins da política econômica ao lado de Wang Qishan (que o precede) e Wang Yang (que veio depois), ele manteve em termos extremamente favoráveis a relação com os EUA, fiel da balança da viabilidade do crescimento desequilibrado chinês. À trinca, Xi Jinping introduziu o discreto Liu He, economista treinado em Harvard e muito bem quisto na América. A despeito de todo o ruído que se produz por aí, a verdade é que a parceria sino-americana é muito bem assentada em relações de confiança, respeito e parceria no mais alto nível.
A China continua vendo o Brasil como oportunidade de negócio. Mais do que pela ótica política que tantos aqui querem ver. Se o tino americano para bons negócios levou a América a fazer diversas concessões políticas que permitiram a sedimentação do poder de Pequim, o entusiasmo burocrático de Brasília, pela criação de um elo político estratégico com o gigante asiático, nos fez frouxos negociadores econômicos. E pior, com aquele que se tornou nosso maior parceiro comercial, num passe de mágica, à custa de prejuízos definitivos na nossa indústria. Desbancando os EUA na base de uma pauta comercial jamais aceita em nossas negociações com os norte-americanos, a China faz com o Brasil verdadeiros negócios da China. Trazendo consigo um cheque de mais de cinquenta bilhões de dólares na bagagem, Li chega ao Brasil como representante do país que detém o posto de maior investidor direto estrangeiro na economia brasileira. Isso é ótimo, mas Pequim sabe mais onde estão seus interesses, do que Brasília, que os recebe distraidamente.
O curioso, Presidente Dilma, deveria dizer o Itamaraty ao preparar a reunião, é que a melhor estratégia para se conseguir de Pequim a parceria e a deferência política almejada por Brasília é tratar melhor os americanos, como sempre fizeram os chineses. Afinal, os interesses de um país são mais bem formulados em linguagem matemática.

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PAULO DELGADO é sociólogo

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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