Entre a Rocha e um Lugar Duro

Entre a Rocha e um Lugar Duro

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 27 de Julho de 2014.

Os Relatórios e Projetos de Resolução produzidos pelas Nações Unidas sobre a situação dos Direitos Humanos nas diversas partes do mundo são às vezes demolidores para quem acompanha a evolução do Direito Internacional. Mas são também um desamparo para quem sabe que o sujeito do direito só existe se está vivo para se manifestar. Para o diplomata que só vê interesse econômico nas nações chamar o fanatismo de “inimigo da ordem jurídica” é uma boa maneira de tentar salvar sua alma. Quando o poder toma a vida como objeto, de pouco vale querer falar a língua do Direito.

Há algum tempo o mundo vem dispensando o trabalho dos intelectuais e das grandes personalidades. Misturado no debate sobre as singularidades dos direitos específicos – corpo, território, gênero, saúde, raça, crença, idade, necessidades, classe, etc – os valores universais naufragaram nas esquinas da transversalidade. Os formuladores de visão geral foram substituídos pelo pensador temático, o especialista, o notável do gueto.

A Assembleia Geral, guiada pela Carta das Nações Unidas, bem como pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, por Acordos específicos e outros instrumentos Internacionais de Direitos Humanos, no momento que recorda suas resoluções anteriores quando registra especial preocupação com a questão e atenta para a sua evolução negativa, solicita ao Secretário Geral a reportar na Sessão seguinte o progresso que tem feito o Grupo de Trabalho dirigido pelo Relator Especial enquanto manifesta a sua profunda preocupação com graves violações de direitos humanos permanentes e recorrentes, blá, blá, blá…

Permanentes e recorrentes. Pois bem. Os últimos dias ascenderam os holofotes em costumeiros palcos do absurdo humano, que sempre teimam em surpreender com novos absurdos demasiadamente humanos.

Igor Girkin é um soldado de muitas guerras. Nascido em Moscou, varou entusiasmado através de um punhado de conflitos que estouraram nos restos da União Soviética. Hoje, com menos hormônios, mas com o gosto pelo conflito cronificado em sua mente, lidera os separatistas ucranianos. Reclama da não intervenção direta da Rússia enquanto recebe alegremente a enxurrada de armas que vem de lá. Armas operadas por fanáticos que não querem distinguir um Boeing 777 civil malaio de um cargueiro militar ucraniano. O episódio e a forma como está sendo tratada a questão serve para que a Rússia sinta a necessidade de profissionalizar o erro e ir administrando o velório da paz na região.

No xadrez da confusa realidade militar do mundo atual o Secretário de Estado americano, John Kerry, correu o mundo nos últimos dias sabendo que a Rússia, que o preocupa por conta da questão da Ucrânia, é a mesma que fala com o Irã, que é, por sua vez, quem menos os EUA quer se metendo no barril de pólvora do Oriente Médio. Quando o Secretário pousou em Israel no meio da semana, aviões civis americanos e da grande maioria da União Europeia estavam com pousos suspensos por lá. A guerra dos subterfúgios, que se arrasta entre Israel e o Hamas é, ao mesmo tempo, a guerra do errado e o errado, do certo e o certo. É impulsionada, dos dois lados da fronteira surda, pelo fanatismo que transformou a terra prometida em um campo de refugiados judeus, expulsos da Europa e palestinos, rejeitados pelo mundo árabe. Dois irmãos que chegaram ali para ficar e, como povos, estão muito à frente dos seus líderes e dos líderes mundiais.

Uma boa cerca faz bons vizinhos diz o poeta; um mesmo opressor faz o pior dos conflitos, diz a realidade. A grande questão no momento, fracassadas todas as tentativas anteriores de acordo, é que para Israel a melhor opção de poder viável sobre Gaza é a manutenção do Hamas. Sem trégua é difícil vislumbrar que emerja outro interlocutor na área. Pois o conflito ali não pode ser caracterizado como uma guerra civil. Trata-se de um conflito internacional cuja solução deve ser negociada por todo o mundo onde existam lideres moderados, com superioridade moral para não precisarem ser pró-Palestina ou Pró-Israel, mas sim a favor da Paz. Tal compromisso com a vida e a liberdade não convive com nenhum tipo de fanático, especialmente o justiceiro, que acha que é sempre do seu lado que está a razão.

A caminhada humana é uma ciranda de cooperação e competição, abastecida por violência. Se o Estado é “o mais gélido dos monstros de gelo”, nas áreas do mundo onde há dúvidas sobre sua legitimidade temos a realidade da guerra sem fim. E entre a rocha e o lugar duro viver é difícil e perigoso.

 

PAULO DELGADO é Sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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