Espanha sem tradução

Espanha sem tradução

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 30 de Outubro de 2016.

Foram muitos os brasileiros que vieram da Espanha. São frequentes, e tantos, os que entram na Europa por lá, mas há dois que contribuíram para a conexão no plano mais elevado entre os dois países. De Recife, João Cabral de Melo Neto, de Juiz de Fora, Murilo Mendes. Brasil-Espanha, gêmeos bivitelinos no idioma, dizia João Cabral, que foi Cônsul em Barcelona, que a Espanha é um país a traduzir. Tão ultrajada e tão interessante Espanha. Aridez de velho oeste com estampa de metrópole colonial. E o tal “gosto bem espanhol de passar a vida ao fio da espada”, como dizia Murilo.

PP e PSOE dividem o poder na Espanha desde os anos 1990. O PSOE, muito mais antigo, fundado ainda no século XIX, foi relegado à ilegalidade pelo franquismo de 1939 a 1977. Com Felipe González, o PSOE governou a Espanha de 1982 a 1996. A partir dali começou a alternância no poder com o Partido Popular (PP), surgido em 1989, misturando conservadores e liberais para fazer frente aos sociais-democratas.

Hoje Mariano Rajoy estará no Palácio da Zarzuela, arredores de Madrid, para ser investido no cargo pelo Rei. Ontem, foi eleito por maioria simples em votação realizada na Câmara dos Deputados espanhola. A recondução do líder do PP ao posto de primeiro-ministro, lá chamado de presidente do governo, ocorre graças à decisão do PSOE de se abster na votação.

O gesto do PSOE de permitir a continuação de Rajoy à frente do país não garante, contudo, a governabilidade. Por isso mesmo Rajoy se esforça para convencer os socialistas a negociarem uma agenda comum, mesmo que mínima. Mas o ânimo é revisionista, mudar o status quo. Na política, a desilusão é uma não escolha. E muitos no PSOE, alquebrados, não querem morrer abraçados ao status quo, mesmo que concordem mais com ele do que com qualquer alternativa. Há um grande constrangimento.

O desconforto das lideranças do PSOE ocorre, em grande parte. pela captura do discurso, e da posição oposicionista, feita pelo Podemos, partido fundado em 2014 e que já ocupa a terceira posição em número de cadeiras no parlamento. A nova agremiação é ícone dos movimentos de rua que vem ocorrendo no mundo desde a crise de 2008. Dão roupagem e aplicativos novos a uma linguagem radical que sempre emerge no bojo de crises severas. A solução que propõe à ruptura causada pela crise é mais ruptura. “Existem mais delinquentes potenciais nesta Câmara do que nas ruas”, chicoteia Pablo Iglesias, líder do Podemos, durante os debates sobre a investidura de Rajoy realizados dias atrás no Palacio de las Cortes no centro de Madrid.

A linguagem de Iglesias seduz e parece fazer sentido na cabeça em turbilhão dessa geração despedaçada. Ao desvincular o Podemos de qualquer compromisso com a governabilidade e a estabilidade, ele, de roupagem nova, segue a receita que alça ao poder contestadores vendedores de sonho e esperança mundo afora. Revolução pacífica agressiva. A verdade, na política, costuma ter dois vizinhos poderosos: a arrogância com os iguais e a adulação das massas por um tempo.  O Podemos sabe o que faz quando empurra a responsabilidade pela crise, não para o grupo ao qual se opõe ideologicamente, mas sim para os que disputam o voto com eles. O caminho da radicalização persegue antes os acusados de traição, mais do que os nunca convertidos.

As últimas eleições antes da crise ocorreram no início de 2008. PSOE e PP dividiram quase todos os votos do país, com vantagem para o PSOE, que com 44% dos votos confirmou em seguida Zapatero na presidência do governo. Em 2011, a onda de derrota eleitoral dos partidos que governavam os países da OCDE durante a crise mostrou sua força na Espanha. Retirou o PSOE do poder dando ampla vitória ao principal opositor, o PP de Rajoy.

A não melhoria da situação, dada a profundidade da crise, ceifou a legitimidade do jovem bipartidarismo espanhol. As votações tanto de PSOE quanto de PP encolheram muito nas eleições sucessivas de 2015 e 2016. O aparecimento de novos partidos e a força, sobretudo do Podemos, aponta para a formalização de um período de instabilidade. Pensando pelo lado da nascente agremiação de esquerda, trata-se da primeira vez, em qualquer lugar do mundo, desde a constituição do PT no início dos anos 1980 no Brasil, que surge um grande partido de massas, de baixo para cima.

“Sutil, intuitiva, és grande e miserável. Teu orgulho só é igual à tua timidez. Eu te veria num convento Espanhol, onde se dance castanholas em homenagem ao Senhor. Através do parlatório, apunhalando os aficionados, com esses olhos retraídos e lascivos”, assim escreveu Murilo Mendes, que gostava de lembrar Ortega y Gasset dizendo que na Espanha a anormalidade é que é normal.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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