Falta alguém em Oslo

A Música Alta

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 16 de Outubro de 2016.

A vida age como um ácido para quem quer fazer dela um joguete. Para quem é sincero, mesmo que sofra, ela vai se fazendo insuperável. E a grande novidade é que, com liberdade e inteligência, todos podem ajudar as gerações futuras a viver melhor. Os delírios infelizes, de quem ama pouco e espera muito, estão nas prateleiras do supermercado. Na vida real conta a bondade humana. Ela não é um paraíso perdido.

O Prêmio criado por Alfred Nobel sempre foi um bazar de desencontros e polêmicas, nas áreas das ciências, da literatura e na luta pela paz. Mesmo sendo coisas diferentes, a honraria privada sueca ergueu-se acima da Légion d’Honneur, a maior honraria oficial do mundo.

Bob Dylan, Nobel de Literatura, consagra essa experiência vivida. A vida de verdade morreu com o hiperconsumo e sumiu da música, hoje dominada pelo tédio e o narcisismo do idiota. Os inventores de grandes objetivos para a literatura também devem estar rangendo dentes. Como num sonho acordado a academia sueca aponta o painel do sentido para um interminável polo emissor de identidade na sociedade de massa. E diz que a música de Dylan informa que o mundo que está passando tem um belo futuro no mundo que está chegando.

Poderia ser o Nobel da Paz para evitar o desencontro que foi o entregar somente a Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia. Faltou a outra parte, alguém das FARC.

O conteúdo até que estava redondo. Afinal como não comemorar a decisão de ver estabelecida a paz na Colômbia? Mas da mesma forma como faltaram votos para passar o referendo, faltaram pessoas dividindo o prêmio. A paz é um ato entre partes, não é unilateral. A única outra vez que um acordo de paz bilateral resultou em premiação solitária foi na “política do sol” com relação à Coreia do Norte. Só o recebeu o primeiro-ministro sul-coreano Kim Dae-jung. Apesar da simpatia de Kim, a península segue uma das áreas mais tensas do mundo.

Em 1973 o sinuoso norte-americano Henry Kissinger e Le Duc Tho, do Vietnã do Norte, foram agraciados com o prêmio da Paz pelo que prometia ser o fim da guerra do Vietnã. O vietnamita recusou o prêmio.

Menachem Begin e Anwar Al Sadat foram agraciados em 1978 pelos Acordos de Camp David que promoveriam a paz entre seus países, Israel e Egito. Quem os reuniu, Jimmy Carter, não foi premiado na ocasião.

Quando foi a vez de Nelson Mandela receber o reconhecimento pelo fim do apartheid na África do Sul, o Nobel foi entregue também a Frederik de Klerk, que se sentava do outro lado da mesa. E embora mantivesse sua alma “branca” impenetrável, aceitou ver seu país se arrepender.

No ano seguinte, 1994, o comitê do Nobel repetiu a dose da premissa de que acordo de paz não se faz sozinho e contemplou Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat por conta dos Acordos de Oslo.

Mesmo em 1996, quando Ximenes Belo e Ramos-Horta receberam o Nobel pelo esforço de construção de uma independência pacífica para o Timor-Leste, não houve a parte indonésia porque Jacarta permanecia oficialmente contra a separação. O prêmio era uma forma de elevar atenção global ao que ali se passava.

Aqui de nosso lado, quando Carlos Saavedra Lamas recebeu a honraria, o fez pelo seu trabalho para a paz da América do Sul, em especial por sua mediação para por fim à Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia. Saavedra não representava uma das partes na disputa. Sua medalha acabou numa casa de penhores argentina. Décadas depois o diplomata mexicano Afonso Robles recebeu o Nobel por seu esforço para levar a cabo o Tratado de Tlatelolco, que é mais um dos tijolos que faz a América Latina – e a América do Sul em especial – uma das regiões mais pacíficas do planeta em termos de conflitos internacionais. Dividiu o prêmio com a sueca Alva Myrdal, esposa do também laureado Gunnar Myrdal, numa edição dedicada a dois expoentes dos trabalhos pelo desarmamento do planeta.

Em 1987 foi a vez de Oscar Árias receber, por conta do Acordo de Paz de Esquipulas, que a partir da cidade da bela e concorrida basílica, emanou uma paz oficial sobre a América Central, mas não foi capaz de dotar suas sociedades de um caráter pacífico. Algo buscado de forma corajosa, mas não muito bem-sucedida, por Rigoberta Menchú, guatemalteca que recebeu o prêmio em 1992.


Há uma gramática da paz que se ergue na celebração das virtudes clássicas da humanidade: temperança, prudência, justiça, coragem, empatia, esperança e transcendência. Pois nada sabe verdadeiramente da riqueza aquele que a deseja inteira para si. Com mais de um século de existência, o Nobel continua polêmico. Inclusive por ser o exemplo de um homem de sucesso que colocou sua paixão no elogio aos outros.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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