Força e Fraqueza

Força e Fraqueza

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 6 de outubro de 2013.

Quantas divisões tem a presidente Dilma?, deve ter se perguntado o presidente Obama quando viu o estado de eloquência da diplomacia brasileira. Fazer cara feia ao inimigo sem a preocupação com as condições internas para enfrentá-lo é imaginar proteger fronteiras com as glórias de propagandista. Em outubro de 1907 terminou a II Conferência de Haia. Pela primeira vez a diplomacia brasileira atuou de forma consagradora em um encontro global. O presidente da época era Afonso Pena, seu chanceler o barão do Rio Branco. Nosso representante em Haia, Rui Barbosa, seguiu a orientação de Rio Branco para agir de modo a conseguir “as simpatias dos povos fracos e o respeito dos fortes” e fixar a doutrina da igualdade entre os Estados. Passado um século, esses conceitos de força, fraqueza, simpatia e respeito ainda orientam a conduta de nosso país. O grande problema é que, vez ou outra, acabamos reféns de interpretações equivocadas e emotivas desses princípios. E a diplomacia, confundindo o bravo com o valente, torna-se prisioneira de expedientes que expõem os limites de nossa força como nação.

Um exemplo é essa confusão publicitária entre força e fraqueza, e o temerário elogio da última. O que é força, o que é fraqueza?  É  uma questão de poder frente a pessoas e instituições, a “probabilidade de que um ator em uma relação social estará em posição de executar sua vontade a despeito de resistências”. Se observarmos bem, muitas vezes os governantes que por aí se rotulam “fracos” (e “pobres”) são os que fazem exatamente o que querem nos seus países e, quando se trata da África, por exemplo, o que temos é o poder de estranhas, violentas e enigmáticas fortunas familiares. E mesmo quando é só poder pelo poder, como em muitos lugares da nossa América Latina, deparamo-nos com o fato de que, relativamente, Obama tem muito menos poder que Evo Morales.

Os recursos de poder que fundamentam a probabilidade de ação são alguns bem explícitos, outros nem tanto. Já as resistências às vezes estão impossibilitadas de serem usadas até pelos fortes. Na vida internacional, em cada uma de suas interações, os recursos de poder estão espalhados de tal forma que força e fraqueza são bastante relativas. Se não bastasse isso, algo que o século XX ensinou é que assimetria de poder pode ser um trunfo para o mais fraco.

Um país pode forjar recursos de poder a partir de uma infinidade de itens que vão do tamanho de sua área e população até quantos alunos estrangeiros recebe em suas universidades. Quantos filmes envia para o exterior pode ser tão importante quanto o valor do seu PIB, ou o que produz. Ter Forças Armadas de ponta, muitas cotas no FMI, alguma capacidade original em comunicação de dados, não ser analfabeto cibernético etc., qualquer outra coisa que possa emanar, direta ou indiretamente, poder. Às vezes nenhum dos ingredientes mais tradicionais de identificação de força torna-se real recurso de poder; em alguns casos até razões subjetivas projetam poder. Poder, logo, força, vem da capacidade de mudar a direção do vento naquela relação específica. “Não se pode ser pacífico sem ser forte”, é uma boa divisa para nós. “Não é forte aquele que blefa”, é sempre uma realidade para quem nos observa.

Nem sempre o equilíbrio de forças foi tão difuso assim. A cerimônia de abertura da Assembleia-Geral da ONU deste ano coincidiu com os 50 anos do célebre discurso sobre Desarmamento, Desenvolvimento e Descolonização, proferido pelo então chanceler João Augusto de Araújo Castro. O mundo de então vivia sob a tensão da Guerra Fria, com seus maniqueísmos. No pedagógico discurso dos 3Ds, como ficou conhecido, Araújo Castro lembrou às Nações Unidas que o mundo tinha mais do que dois pontos cardeais e chamou a atenção para o fato de que “a humanidade é mais rica e mais complexa do que seus catalogadores”.

Por causa do esforço e da denúncia corajosa de muitos evitou-se o pior e o sistema de nações evoluiu, tornando-se mais próximo do ideal de multilateralidade. A visão de mundo que cataloga países entre fortes e fracos não é mais uma verdade absoluta no mundo atual. Por isso, apesar de aparentemente Bolívia e Estados Unidos serem perfeitas antípodas para se falar de força e fraqueza, essa definição não só é incorreta, como causa desserviço aos interesses do Brasil. Por fim, temos que prestar atenção para que o elogio exagerado da fraqueza, sem dar a ela uma dimensão moral nítida ou esquecendo-se da dependência tecnológica total da América Latina, não transforme autocomplacência em política de Estado.

A defesa com vigor e clareza dos interesses das nações deve estar baseada na ideia mínima de que nenhum cidadão precisa ser mais sensato que seu governo.

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PAULO DELGADO

Força e fraqueza

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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