Jacarta em fogo

Jacarta em fogo

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 27 de Novembro de 2016.

A Indonésia, maior arquipélago do mundo, inundado de vulcões, caminho de tsunamis, não sossega, politicamente, um só dia. Jacarta, sua capital, está há semanas pegando fogo em torno de Basuki Tjahaja Purnama, seu governador. Manifestantes muçulmanos pedem a cabeça do cristão Purnama, sob alegação de ter, em discurso, blasfemado contra o Alcorão. Processado, ele pediu desculpas, mas não esfriou o burburinho na rua.

Purnama, muito mais ouriço do que raposa parece menos tolo do que muitos injuriados ocidentais que batem pé por suas asneiras. Forjado em meio ao trágico Maio de 1998 indonésio que levou à queda do ditador Suharto, por mais de 30 anos um dos maiores tiranos da história do mundo, Purnama sabe bem o que é ser mal tragado por ser minoria. Além de cristão, é descendente de chineses, de onde vem inclusive seu apelido, Ahok, pelo qual é conhecido popularmente. Ao longo da semana que passou, o governador teve que se apresentar na sede da Polícia Federal do país para responder na condição de suspeito de blasfêmia. Até então favorito para ganhar sua reeleição no ano que vem, Purnama pode ser impedido, a depender do resultado de um julgamento com transmissão para todo o país, conforme decidido pelo espetáculo do investigador. O ministro de Assuntos Religiosos da Indonésia pediu para a população parar com os protestos e aguardar. Tudo na maior transparência, a melhor forma que a política atual encontrou para esconder a perfídia.

Em Maio de 1998 o caldo entornou nas ruas da Indonésia. A fervura começou um ano antes, quando a Crise Financeira Asiática ceifou o crescimento que vinha se acumulando. Em meio ao frenesi da busca por culpados o governo implodiu e a população elegeu a minoria de etnia chinesa como bode expiatório, provocando linchamentos públicos.

Na esteira da queda de Suharto a Indonésia, para tentar melhorar seu rosto, aderiu à mania de instituir cortes específicas para julgar atos de corrupção e tráfico de drogas, que envolveu brasileiros. Hoje o país tem, além das cortes gerais, cortes separadas para assuntos religiosos, assuntos militares, assuntos administrativos e as Tipikor, que julgam os casos de corrupção. Essas últimas são alimentadas pela Comissão de Erradicação da Corrupção. A partir de 2010, o Ministério Público, que até então mandava seus processos de corrupção para as cortes gerais, tidas, na média, como menos rigorosas que a corte específica, também centralizou seus casos nas Tipikor que, por sua vez, foram espalhadas por todas as capitais provinciais do país. A fama pública advém do fato que as Tipikor decidem pela condenação na maioria dos casos que chegam a elas. Até 2010, quando era centralizada em Jacarta, dos mais de 250 casos julgados quase a totalidade gerou condenação.

Quinta-feira passada, uma dessas cortes, localizada na cidade de Medan, sentenciou a seis anos de cadeia um ex-governador da parte norte de Sumatra.

Casos de corrupção são julgados com fervor religioso em todo o mundo. Na jovem democracia indonésia o jogo cênico inclui o movimento e a fúria das ruas. Julgamentos de crimes passionais também são televisionados. A construção da harmonia na sociedade civil do país, condicionada sob violência durante três décadas de ditadura, é um esforço institucional ainda interessantes no mundo hoje, com 260 milhões de habitantes embalados por uma diversidade cultural desafiadora e em constante movimento.

Joko Widodo, empossado presidente do país em 2014, era um acalento para os que apostam no sucesso da democracia na Indonésia. No dia 9 de julho daquele ano, quase 140 milhões de eleitores foram às urnas. Terceiro presidente eleito de forma direta no país, Widodo carrega consigo muitos dos predicados capazes de fundamentar uma grande transformação positiva no arquipélago de mais de 15 mil ilhas.  Por outro lado, na esteira da destruição cada vez mais rápida dos ídolos e dos poderosos, Jokowi, como é conhecido, também vestiu muito bem a carapuça de demagogo, populista, falso combatente da corrupção, manipulador e tudo o mais que a falta de pudor e limites dessas disputas inflama. Países em que o povo, e o governante, se comporta como multidão, o que será a verdade?

Os ingleses, também habitantes de ilha, inventaram agora, que viraram às costas para a Europa, de dizer que existe o adjetivo pós-verdade (Post-Truth). Eleita como a palavra do ano de 2016 pelo maior dicionário da língua inglesa, o Oxford, a Indonésia desponta como um dos melhores campos para observação desse distópico fenômeno da “pós-verdade”. Não é o único.

Quem acha que é a realidade que está moldando o comportamento no mundo não entende mais de política. O mundo cansou da verdade do mundo.

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Paulo Delgado  é  sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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