Lições do Rio Amarelo

Lições do Rio Amarelo

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 1º de Dezembro de 2013.

Nesta época do ano, o nordeste chinês tem temperaturas constantes abaixo de zero. À rigidez cortante do clima somou-se, no fim de semana passado, a fúria das placas desassossegadas. Uma sequência de tres terremotos danificou pelo menos 16 mil casas. O resultado do desastre, no entanto, foi recebido com alívio. Em uma região que carrega consigo o histórico de catastrófes sem fim, como o terremoto da cidade de Tangshan que matou meio milhão de pessoas, ver somente gente ferida permite entender o que se passa na cabeça dos deuses.

A história da China é tão marcada por terremotos que seu povo desenvolveu certo fascínio amedrontado por eles aos quais imputam atributos insuspeitados. Como ensina John Fairbank, um dos principais sinólogos do século XX, os chineses atribuíam a eventos naturais uma forma de avaliação cósmica dos atos dos governantes.  Com toda sua fúria, o terremoto de 1976 em Tangshan parecia trazer de fato o veredito. No período que se seguiu a ele a pressão por mudanças profundas tornou-se uma sina. Mao morreu naquele ano e o país não parou mais de se mexer.

Nos dias atuais o tom é de consagração do homem que completa um ano como o número um do país. A lista de decisões publicada 15 dias atrás trata do “amplo aprofundamento das reformas” em direção à maior abertura e ao mesmo tempo pede e entrega mais poderes ao presidente Xi Jinping.  Dando passos sólidos para se tornar o presidente mais poderoso que o país já teve nos últimos 15 anos, o renovado senso de urgência que sua liderença imprime veio escrito no relatório final da Terceira Plenária do Comitê Central do Partido Chinês.

Depois de passar por duas administrações – primeiro, a encabeçada por Jiang Zemin e Zhu Rongji (1998-2003) e depois a dirigida por Hu Jintao e Wen Jiabao (2003-2013) – em que não havia superconcentração de poderes nas mãos de um único líder, a China começa um período de maior centralização. O fato é que apesar de dividir a administração do país com Li Keqiang e os outros 5 membros do Politburo, a tendência é de que Xi Jinping acumule cada vez mais funções similares às de um presidente americano. E isso sem ser freado, pelo menos no curto prazo, por uma institucionalização formal dos pesos e contrapesos que limitam o vasto poder do ocupante da Casa Branca. O curioso é que a maior fatia de poder a ser delegada a Xi vem justamente por verem nele o líder capaz de reduzir outras concentrações de poder negativas para rumos que  assegurem a trajetória de sucesso do país.

Com uma perspectiva de mais 9 anos à frente do governo, Xi se prepara para governar o país com o maior PIB do planeta. Sabe, contanto, que tudo que passa da medida  tende a ficar incontrolável. Especialmente a partir do momento em que se torne a maior economia do mundo, a China tem que buscar, no plano interno, acelerar a desconcentração do poder econômico. Daí a nova ênfase na importância “decisiva” dos mercados como determinadores de preço para alocação dos recursos, conceito central de uma série de reformas pontuais que serão regidas por um enxuto “Grupo Condutor” encabeçado por Xi. De forma correlata, no plano externo o desconforto com a China por parte dos vizinhos e dos Estados Unidos não deve  arrefecer. Daí a criação do “Comitê de Segurança do Estado”, de onde Xi chefiará a alta política do país para buscar aumentar seu quinhão de poder no mundo.

A rápida e sólida ascensão de Xi segue o método de não desprezar o controle dos próprios impulsos ou menosprezar o espaço alheio. Os líderes chineses estão sempre atentos à períodica necessidade de resolver distorções no país que vem construíndo um Estado de direitos, sem ter um Estado de Direito. Aliás, é esse modelo de regulação submissa que encanta autoritários do mundo que molham os pés no rio Amarelo. Inventar e distribuir direitos fora do Estado de Direito é o grande negócio da China.

Dominar os perigos da prosperidade é a sabedoria de Deng Xiaoping, que mudou os rumos da China a partir do fim da década de 1970.  De fato, nos últimos 16 anos (Deng faleceu em 1997) a estratégia de longo prazo da China não se desviou do que foi desenhado por ele.

Extremamente chinesa é essa história de liberar ao máximo a economia sem mexer na alta estratégia política; concentrar o poder político relevante; formar e escolher bem quem estará no poder. Tudo de acordo com uma visão de mundo que divide raízes ocidentais ­– notadamente debitarias de Platão (com seu ideal que remonta a um patriarcado tribal em que ocorre “natural governo dos poucos sábios sobre a massa ignorante”) – e orientais, assentadas em Confúcio, cujo pensamento moldou e sustentou explicita ou implicitamente o Império do Meio nos últimos dois mil anos.

Terremotos e calmarias de um império sempre atento à lição de que Deus dá a arrogância àqueles que pretende destruir.

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PAULO DELGADO 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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