Medo do esquecimento II

Medo do esquecimento II
Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 20 de Setembro de 2015.

As Fundações, originadas da preocupação das ordens religiosas em preservar seu acervo, tradicionalmente homenageavam os santos. Parente muito próxima da entidade filantrópica tal instituição deveria se situar fora do campo tributário e da intriga política por não estar apegada ao mundo da economia. As de ex-presidentes, alguns pecadores, não provocam mais compaixão e ainda vão dar muito o que falar em todo o mundo.

Ciente dessas possibilidades, o sempre criativo Obama quer dar a largada em sua fundação ainda no governo e com ao menos o dobro do que começaram seus dois antecessores juntos. É inclusive uma sugestão pessoal do atualmente enrolado Clinton: angarie logo de uma vez o máximo de fundos para tocar seus projetos para a vida pós-presidência e assim, enquanto é mais fiscalizado pelos poderes do Estado que dirige, se protege das críticas de que anda cobrando faturas atrasadas quando deixar o cargo.
Os EUA institucionalizaram em uma parceria público-privada a vida pós-palaciana de seus presidentes. Da Casa Branca iriam todos cuidar de suas respectivas Bibliotecas Presidenciais. Dai para as fundações foi um passo economicamente calculado.

O fato é que no final da Guerra Fria ocorreu uma mudança significativa nessas organizações que até então eram mais como parques temáticos do orgulho nacional. Estavam no polo do desapego do lider diante de atividades lucrativas. Todavia, quando o complexo militar-industrial cedeu lugar em Washington ao que Jagdish Bhagwati, da Universidade de Columbia, chama de complexo tesouro-wall stree o polo do interesse falou mais alto. A vitoria do capitalismo foi assimilada com mais rapidez pelos representantes do capitalismo financeiro que formularam respostas mais ágeis e habilidosas para os que almejavam liderar o mundo a ser construído. Ocuparam o poder, assessorando os eleitos e financiando a eles e às novas indústrias.

Como George Bush pai despachou ininterruptamente na Casa Branca desde 1981, quando lá entrou como vice-presidente, até 1993, quando deixou a presidência de um país sem a URSS nos calcanhares; e Reagan, que presidia durante o colapso soviético, deixou a Casa Branca já com a saúde bem debilitada; embora tenha agora outro perfil, o mais acabado exemplo de ex-presidente operando entre um mundo e outro é o de Jimmy Carter. Foi ele que trouxe para as tais fundações presidenciais esse caráter de escritórios que funcionam como partidos da pessoa, angariando doações corporativas para tocar agendas e empunhar bandeiras. Hoje é uma exceção com sua opção por uma agenda humanista de zelo pouco lucrativo.

A realidade tumultuada de Clinton só existe por via de sua atuação extra, bolada pelos ideólogos de um mundo pós-ideológico. Pois se foi Carter que deu esse caráter de trabalho, meio ONG, meio consultoria para arbitragem e articulação de interesses humanos Clinton avançou o sinal em direção ao lobby fazendo tais fundações sobreviverem às funções de chefe da nação.

A consolidação do término da Guerra Fria, a criação da OMC e de diversos tratados que colocaram o comércio global na vanguarda dos interesses internacionais enquadraram o mundo sob novo paradigma. Houve quem tentasse reconciliar o neo-liberalismo com as agendas de responsabilidade social do Estado. Na academia essa Terceira Via foi teorizada por Lord Giddens, amigo de Tony Blair, que por sua vez era entusiasmado por Bill Clinton.

Se a Terceira Via parece ter fracassado como programa de governo, Blair, Clinton e outros levaram tal reconciliação para suas vidas privadas de ex-mandatários, sempre influentes. O caso de Blair é o mais sintomático. Seu escritório é um guarda-chuva de várias fundações e de uma multi-milionária empresa de consultoria, a Tony Blair Associates. A reconciliação politica é certamente muito lucrativa para Blair e Clinton. Com sua ação ajudam a consolidar esse novo tipo de controle do mundo que é fazer da maioria meros consumidores, espectadores, assinantes, ouvintes – o mundo dos que sonham em ter o status do outro. Assim foram muito além do que as figuras principais da trasição do tempo da ideologia. Nelson Mandela e Mikhail Gorbachev, cada um a seu modo e donos de virtudes pessoais distintas, não poderiam imaginar que suas fundações só ampliariam sua atuação para além dos seus mandatos se se tornassem benéficas para a nova ordem econômica mundial que ajudaram a impulsionar com suas ações corajosas e decisivas. Mandela manteve-se discreto como sempre foi. O que escapa às vezes ao entendimento é porque a reconciliação mundial não trouxe paz ao mundo, nem projetou líderes desinteressados e construtores de novos caminhos para as nações.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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