Mirando a Ásia

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de dezembro de 2011.

A turnê do presidente Barack Obama pela Ásia aponta a direção da política externa dos Estados Unidos daqui para frente. Em Bali, Indonésia, anunciou: “Somos uma potência do Pacífico e estamos aqui para ficar”.

O primeiro presidente a assinalar a importância do Pacífico para a América foi Theodore Roosevelt. Ganhou o Nobel da Paz por contribuir para o fim da guerra russo-japonesa no início do século 20. Obama, que recebeu o Nobel por ganhar a eleição, se inspira no velho Roosevelt para manejar conflito e paz.

Ao redesenhar a segurança de suas alianças militares e comerciais, a Casa Branca não deixa dúvidas que quer esquecer a confusão que ajudou a aumentar no Afeganistão e no Iraque. A viagem também não escondeu a busca de rejuvenescimento da “América como poder”: de um lado buscar novos mercados para enfrentar a crise econômica doméstica, de outro posicionar-se mais ostensivamente para competir com a influência da Índia, deter o Paquistão nuclear, precaver-se da hostilidade da Coreia do Norte e confrontar o vigor da China. O Império do Meio já desestabilizou a ordem regional e atrai para sua órbita muitos aliados dos EUA.

Os americanos têm uma predileção para comparar presidentes. Franklin Roosevelt, o democrata do New Deal, parecia ser um pule de dez para Obama devido às comparações dessa crise com a de 1929. Entretanto, com sua dificuldade para dar grandes soluções para a economia do país, Obama aponta para o exterior na direção traçada por Theodore, o Roosevelt republicano.

A missão foi traduzida por Hillary Clinton em artigo da revista Foreign Policy. Avisou aos seus compatriotas, imobilizados pela crise econômica doméstica, que estão equivocados os que querem a “volta para casa”. Pediu um consenso bipartidário e prometeu ir em frente em direção ao oriente. Assegurou que seu país investirá, de forma inteligente e sistemática, tempo e energia “diplomáticos, econômicos, estratégicos, para colocar nossa posição, sustentar nossa liderança, segurar nossos interesses e avançar nossos valores”. Realinhar a política externa mirando a Ásia-Pacífico tornou-se um fator chave da política atual, onde podem estar em jogo os próximos interesses do mundo. Hillary quer na mesa um jogo multilateral, mas deu ao seu artigo um título unilateral, mais do interesse de Washington: “Século Pacífico da América”. Encontrou tempo para brincar com o duplo sentido da palavra “pacific” que significa, em inglês como em português, tanto o nome do oceano como o adjetivo conciliador, avesso à guerra.

Os chineses não entendem bem por que os Estados Unidos falam em voltar quando, na verdade, nunca saíram da região desde Hiroshima e Nagasaki. Acreditam que o atual interesse na política regional é fruto da necessidade de um novo padrão de relacionamento diante do vertiginoso crescimento industrial e tecnológico da Ásia/Oceania e suas repercussões geopolíticas. As autoridades chinesas dão um exemplo: se os EUA decidiram instalar uma força permanente de fuzileiros navais na Austrália, talvez isso não preocupe tanto Pequim. Pelo menos agora. Muda o cenário se essa decisão atrapalhar a continuidade da parceria econômica com Camberra e impedir a compra de minério e urânio radioativo. Já os EUA não falam somente de transparência nas opções militares. Acordaram para o dinamismo econômico asiático e querem maior mobilidade comercial no Mar da China, facilidades para exportação de seus produtos e parcerias em investimentos e inovação.

Um mundo aberto continua uma utopia. O desafio é a construção de normas comuns multilaterais que ajudem a escrever um novo tipo de convivência geral, onde todos aceitem regras acordadas, sem formação de blocos econômicos ou militares. Não é fácil conciliar liberdade comercial com princípios de autodeterminação e enquadrar tudo isso na enfraquecida ONU ou nas obsoletas maneiras da OMC, Banco Mundial e FMI.

Difícil vislumbrar quais regras comuns serão aceitas. E qual doutrina de poder será acionada para bloquear a força dos interesses próprios — econômicos, políticos, culturais, militares, territoriais e marítimos — numa região mergulhada em ideias nacionalistas. Ou como é possível imaginar solução pacífica de controvérsias sobre o livre comércio se os próprios Estados Unidos votaram contra e não ratificaram até hoje a Convenção das Nações Unidas sobre o direito do mar? Sem falar que continua incompreensível a noção de livre comércio que tem a China. Tudo isso torna distante a ideia de um protocolo comum de segurança coletiva que possa calar conflitos e promover a paz.

O presidente da China, Hu Jintao, em postura pouco característica, exortou sua Marinha a ficar pronta para a disputa da Ásia. Obama deu adeus a Bagdá certo de que os conflitos do Oriente Médio puderam ser razoavelmente isolados. Mas, com tantos protagonistas no Pacífico, multiplicam-se alvos e motivos. O que só aumenta a exposição a detalhes. E são detalhes que colocam o mundo mais perto do risco.

Paulo Delgado, sociólogo e cientista político.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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