NORTE DA AMÉRICA DO SUL

NORTE DA AMÉRICA DO SUL
Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 4 de outubro de 2015.

Hugo Chávez não escondia sua predileção por Manaus, entre as grandes cidades brasileiras. Por uma questão geográfica, a capital do Amazonas cooperaria para deslocar o eixo de prioridade estratégica para o norte da América do Sul, centro do continente americano. Como visão de futuro, ele não estava errado. De fato os estados do norte do Brasil, mais seus vizinhos Colômbia e Venezuela, se integrados representariam um formidável eixo de desenvolvimento mais próximo dos grandes mercados mundiais. Mas apesar da boa percepção geográfica, o modelo pensado para sustentar essa integração era economicamente sujo, ambientalmente não sustentável e politicamente inconfiável. Com a fama alcançada pela tecnologia verde, limpa e facilitadora da vida integrada com qualidade, o norte da América do Sul, com seu esplendor amazônico, pode mesmo alcançar posição de grande importância no futuro do planeta. Mas a sofisticação necessária não resiste à brutalidade dos métodos de fazer dinheiro e conduzir a política que ali vigoram.
A Venezuela passou boa parte de agosto e setembro num imbróglio de fronteira com a Colômbia. Para mostrar que não é coisa aleatória, passou de setembro a outubro inflamando novamente o centenário impasse territorial com a Guiana. Isso faz do Brasil o único país com fronteira com a Venezuela, atualmente sem transtornos acintosos oficializados com Caracas. O jeito provocador que caracteriza a herança do autoritário bolivarianismo do século XXI – um anacrônico sistema que opera dezenas de ações boas ao custo de centenas de ações ruins para a sociedade – governa através de doações a aliados e tensão permanente com opositores, abusa da capacidade de empatia alheia, ameaça a estabilidade regional, inventa uma ficção econômica baseada na produtividade zero da população.
Na Assembleia Geral da ONU, dias atrás, David Granger, presidente da Guiana, o empobrecido membro sul-americano da Commonwealth, acusou o vizinho de valer-se de sua superioridade militar e econômica para intimidar e agredir seu país. Tropas venezuelanas provocam tensão com exercícios na fronteira e ameaças de ressuscitar a pretensão de Caracas de anexar o território de Essequibo, administrado pela Guiana. Reclamação essa reavivada depois que a empresa americana Exxon descobriu grandes quantidades de petróleo nas águas territoriais da área contestada. O governo de Caracas viu ai mais um episódio para a manipulação nacionalista e se pôs em pé de guerra. Se o seu bisavô não lhe contou, saiba que a questão é discutida desde 1899, quando a Inglaterra era o império Britânico !
Com relação à Colômbia, as idas e vindas ordenadas pelo atual presidente da Venezuela em relação á fronteira entre os dois países, são também motivadas pela proximidade da eleição que ameaça seu governo impopular. Conta ainda, para bagunçar mais um pouco o cenário regional com a indiferença do governo do gigantesco Brasil, vizinho dos dois, envolvido em sua secular dependência de presidentes imaturos. A ida de militares venezuelanos de casa em casa caçando colombianos é parte da tragicomédia que se completou dias depois com Caracas voltando atrás e aceitando o retorno dos deportados. Semana passada assinou, em Quito, um acordo de distensão das hostilidades com o colega colombiano, mediado pelos presidentes do Equador e do Uruguai. Quinta feira passada, a falta de combustível provocou mais um assassinato na fronteira, ajudando a manter negativa a expectativa de paz .
Parte substancial da economia naquela região, de desertos, planícies e florestas, de mais de um milhão de habitantes é ilícita e a moeda, uma ficção móvel. Ninguém sabe ao certo quanto vale o bolivar venezuelano, o que vale o peso colombiano. Especialmente porque existem coisas de “graça” na Venezuela, o país do subsídio e do “bolsa tudo”. Um cenário perfeito para a ação do contrabandista que atravessa o que há de mais lucrativo, especialmente a gasolina, que praticamente não custa nada na Venezuela ($R0,08 centavos o litro), de um lado para o outro. Da Colômbia segue roupa e comida, em virtude do desabastecimento do vizinho. Além da droga, é claro. Fazem isso basicamente arbitrando, com a transição da diferença oscilante de preços – ora barato na Venezuela, agora barato na Colômbia – o formigueiro humano que foge da instabilidade politica, da desestruturação econômica, da perseguição paramilitar e dos narcotraficantes.
A essência dos regimes populares latino-americanos é o individualismo do líder carismático. O terror politico uma invenção de caudilho, a improvisação econômica uma atividade da arte da equitação. Sua personalidade desencadeia, mais cedo ou mais tarde, todos os elementos da desordem.
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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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