O desafio europeu

O desafio europeu

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 14 de dezembro de 2014.

Ansiosas por se prejudicarem mutuamente o estranhamento entre Alemanha e França é histórico. Já produziu horrores e avanços. Uma ciranda de guerras e tratados. A União Europeia é o mais criativo e civilizado momento dessa coexistência conflituosa. Uma visão trazida pela América do Norte de solução desenhada a sua imagem e semelhança para um continente em frangalhos após a Segunda Guerra. Enquanto a França almejava a liderança política, à Alemanha foi imposta a união monetária que hoje tem se mostrado disfuncional, fazendo renascer assim seu ceticismo original.

Todavia, talvez justamente por ser o país que tinha mais claro as fragilidades inerentes ao Euro, a Alemanha foi a que melhor usou a moeda a seu favor de forma sustentável. Boa lição que falta à América Latina que continua preferindo servos a críticos. Com a crise instalada dentro da União Europeia, o casal franco-alemão começou a brigar sobre como lidar com a situação.

Nos últimos anos essa relação tortuosa, no fundo derivada da similaridade de interesses entre personalidades fortes, vem tendo suas idas e vindas aceleradas pela desestruturante incerteza dos rumos da economia. Mas o que é mais irônico nesse baile, é que o mesmo Euro, que os alemães aceitaram com expressa reticência, acabou sendo a via de transferência de poder de Paris para Berlim. O que a Alemanha não conquistou com a guerra, lhe foi ofertado pela paz.

Mas se no passado os alemães quiseram exercer poder à força sobre o continente, atualmente eles não querem liderar. Sabem bem o seu custo. Expressam anseios de uma vida próspera e tranquila. Trabalharam engenhosamente para isso nas últimas décadas, o que criou dentro da união monetária um problema. Mestre das ninharias, a política só respeita a grandeza do poder se visto como força e humilhação de concorrentes. Mas Berlim não quer crescer para ajustar sua primazia política ao valor da moeda.

A Alemanha insiste na crítica. É o máximo de criatividade a que se propõe. Mais que isso pode perder o sono. Mas afirma, aqui e ali, que os países desajustados pela crise do Euro devem se organizar com passividade e recuo em seus gastos. Uma forma de liderança pelo exemplo. “Hajam como eu agi e ajo e tudo dará certo” – é o conselho que vem sempre em forma de controlada admoestação. Já a França anda frustrada, pois o espaço de liderança no continente está na verdade vago. Paris quer exercer criativamente um poder que não tem enquanto a Alemanha esnoba a posição que hoje tem. Desde que assumiu o governo, Hollande quebra a cabeça para olhar na direção certa e para propor um lugar de liderança para a França. Desilusão após desilusão, erro após erro, o país tem se enquadrado, mas não quer que a racionalidade soe como capitulação. A esquerda sempre achou uma heresia dar tratamento adequado aos seus erros.

Ocorre que nas últimas semanas o partido de Angela Merkel teve eleições internas nas quais a Chanceler foi reeleita líder pela oitava vez e agora com 97% dos votos. Um tom mais vivo de críticas à França foi expresso por Merkel e seus aliados, como estratégia necessária para angariar tão estrondosa simpatia doméstica. Suficiente também, entretanto, para ferir as suscetibilidades francesas, cujo governo socialista logo se apressou a anunciar um pacote de reformas liberalizantes intragável pela esquerda do partido. O franceses ainda se acham a última madeleine da pâtisserie ideológica do mundo.

Jean-Jacques Servan-Schreiber formou-se na Escola Politécnica de Paris, foi piloto de caça das Forças Francesas Livres durante a Segunda Guerra, tornou-se editor do Le Monde, jornal que se mantém como o mais respeitado da França. Saiu de lá e fundou a L’Express , revista que existe até hoje, mas já mudou de cara e conteúdo tantas vezes quanto um desatento observador achar que não. O mais relevante sobre Servan-Schreiber é que ele escreveu lá pelo final da década de 1960 um livro intitulado “O Desafio Americano”. Atraiu uma geração inteira para a bandeira de alerta que levantava. Tarimbado de guerra, denunciava em linguagem de combate o que para ele representava o perigo do desembarque de empresas americanas em solo francês. Uma reação nasceu dali na forma de políticas que incrementaram vantagens competitivas na França e para toda uma Europa mais unida.

Hoje o desembarque de ideias e modelos que chega à França é outro. Incompreensível, para a esquerda e a direita, duas forças populistas que se digladiam sem nenhum senso de futuro. Enquanto isso o centro político vai aplicando na Alemanha, caladamente, o modelo maldito de dar liberdade à economia para criar riqueza. Sem o que não há o que tributar ou redistribuir.

 

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PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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