O Grande Canal

O Grande Canal

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 4 de Agosto de 2016.

A China recebe o G-20 pela primeira vez. Depois de várias rodadas de encontros ministeriais, em diferentes cidades chinesas, hoje e amanhã ocorre o encontro de cúpula. Será aberto em Hangzhou, local especial para impressionar dignitários estrangeiros. Não bastasse ser a época do ano em que a florada de osmanthus, brancas e cheirosas como damas-da-noite está em seu esplendor, o mandarinato de Pequim ordenou banho de loja na região. Até privadas foram instaladas em casas pobres ao redor do centro de convenções que nunca tinha visto nem tratamento de esgoto.

O Lago Oeste de Hangzhou, cantado na poesia chinesa desde séculos atrás, é, em relação à Pequim, a outra ponta do Grande Canal, maravilha hidráulica da engenharia chinesa que remonta à época em que a maior parte das invenções e construções do mundo ocorriam por lá. Sutilezas das culturas curtidas no tempo, é para lá, na origem do canal histórico, que os poderosos da capital normalmente se dirigem quando buscam confluência entre os interesses econômicos e políticos, internos e externos. O que for decidido ali, nas cercanias de Xangai, abastecerá a capital, decerto. Mas precisa ir além da capital, pois é a riqueza do interior que possibilita a grandeza da capital. Política de canais, sensibilidade de ancestrais que o Brasil desconhece.

As figuras ali presentes resumem a globalização. Do continente americano estão Macri, Temer, Pena Nieto, Obama e Justin Trudeau. Pela África, Jacob Zuma. Pela Oceania, Malcolm Turnbull, primeiro-ministro da Austrália. O Extremo Oriente é representado por Joko Widodo, da Indonésia, Park Geun-hye, da Coreia do Sul e Shinzo Abe, além do anfitrião chinês, Xi Jinping. O Oriente Médio tem cadeira com o duro Erdogan, da Turquia, e o saudita Muhammad bin Salman Al Saud, que vai no lugar do pai, o rei Salman. A Europa, representada pelos burocratas máximos da União Europeia, Juncker e Donald Tusk, também conta com Hollande, Merkel e Matteo Renzi. Theresa May fala pela Grã-Bretanha. Os gigantes de pernas bambas vão de Vladimir Putin, da Rússia. Narendra Modi, da Índia.

As mais relevantes organizações internacionais (FMI, OMC, etc.) não apenas participam, como são elas que juntam as pontas do que deve ser e for negociado. E tocam burocraticamente a agenda sem ligar para as razões de Lewandowski  ou o referendum inglês.

Como em cada edição do G-20 líderes de outros países são chamados a participar. Neste ano o egípcio Al-Sisi e o espanhol Rajoy estão entre eles. É também o último grande evento internacional do presidente Obama. O qual foi eleito, aliás, no bojo da mesma crise que fez o G-20 o grande  encontro de chefes de Estado e governo. O ocaso da era Obama coincide com um questionamento a respeito da relevância do fórum. Que ele é uma boa ideia não se tem dúvida. Contanto, fóruns políticos, por mais bem pensados que o sejam, se não forem dotados de agenda clara e poder de realização, acabam irrelevantes. Apesar de ser o principal fórum para cooperação econômica internacional, o G-20, talvez, seja mais associado a um mercado de bairro cujo slogan é “gaste menos sem ir mais longe”.

A Europa debilitada, o presidente americano em fase crepuscular, a Rússia isolada e muitos outros países do grupo mais fracos, dão ainda mais solo para o protagonismo chinês construtivo. Segurando o bastão do G-20 em 2016, os chineses chegam a Hangzhou para discutir diretrizes globais e a forma de inserir a China na liderança do mundo. Até pouco tempo atrás, evitando passar essa impressão, aparentemente pretensiosa, hoje os chineses jogam com a ideia da ligação entre o futuro do país e do planeta. Xi Jinping é o primeiro líder chines que almeja ser um líder global com ideias sobre como as coisas devem ser feitas. Não por acaso, Hangzhou é a capital da rica província de Zhejiang, onde Xi foi governador e colocou em prática uma bem sucedida estratégia de incentivos ao desenvolvimento da iniciativa privada atrelada ao comércio internacional.

São duas as teorias mais básicas de como o desenvolvimento ocorre. Uma “natural” ocorreria a partir do comércio interno dos países, enquanto outra “não-natural” se basearia no comércio exterior. Na sua obra fundadora, Adam Smith associava a primeira forma à China e a segunda à Europa. Hoje tal associação mudou e tornou “natural” o exterior com a globalização. O nó górdio do G-20 é justamente convencer as pessoas, a partir de seus líderes, de que eles podem ganhar mais indo mais longe. Que as peônias espalhadas por Hangzhou e a beleza da alvorada e do entardecer no Lago Oeste desarmem os pensamentos tacanhos.

 

PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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