O mundo não piora

O mundo não piora

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 29 de Dezembro de 2013.

Retire da paixão o sentimento e a espiritualidade e sinta brotar furioso o animal que temos dentro de nós. Revoltas populares, execuções de concorrentes, um papa intrépido, vacilantes rodadas comerciais, contenção nos orçamentos militares, guerras locais, migração sem fim de deserdados em todos os paises. 2013 tem sua lista de assuntos que marcaram a política internacional.

O Papa é de fato, a grande revelação. Surpreendeu o mundo que até março deste ano nem sabia quem era Bergoglio. E ele não veio fora do contexto. Arrastou multidões no Rio, trafegando pelas mesmas ruas em que um mundo de anônimos, impulsionado por redes de retalhos, alertou para o jogo impuro das relações políticas. E pediu mais Estado, a instituição criada para ser discreta, mas que vai se tornando a mais afetada da sociedade em todo o mundo.

Movimentos populares de forte contestação atemorizaram governantes e analistas. É uma onda que vem crescendo e aglutinando desde os movimentos ligados à crise financeira do fim da década passada – como o Occupy Wall Street e suas variantes – e que também se alimenta de sentimentos de rebelião como os que inspiraram as revoltas no mundo árabe desde 2010.  São gritos de que existe vida possível organizada para além das burocracias tradicionais. Lembram aos desatentos que esse novo cidadão conectado à tecnologia exige mais atenção da preguiçosa democracia política.

Mas os quiproquós entre países não deixaram de ranhetar. Se algumas situações específicas terminaram o ano melhor do que começaram, como é o caso dos desentendimentos entre o Irã e os EUA, outras se desmilinguiram ainda mais. As tensões no Leste Asiático contra estrangeiros tornam a região mais dinâmica do planeta uma das mais tensas.  O carro-chefe é o rancor mútuo entre Japão e seus vizinhos, especialmente a China. As encenações de desafeto e provocação, espalhadas por todo o ano, foram fechadas com chave de ouro no último dia 26.  Na data em que a China comemorou 120 anos de nascimento de Mao Tsé-Tung, viu o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, visitar o santuário em Tóquio que honra a memória dos japoneses mortos em guerras, inclusive criminosos da Segunda Guerra odiados por chineses e coreanos. Como se o ambiente regional já não fosse tumultuado demais, continua alí plantado o reinado desvairado da família Kim. A Coréia do Norte de Kim Jong-Un, acusada de executar dezenas de pessoas por assistirem programas televisivos do seu vizinho do sul, fechou o ano com assassinatos palacianos informando com sangue que continuará a serviço de cabos de guerra regionais.

Mas enxugar orçamentos de defesa é a boa notícia para o novo ano. Meio que sem querer o Brasil participou dela quando arrastou a decisão de compra às vésperas de ficar sem proteção do espaço aéreo e decidiu pelo menor preço e pelos efeitos que a produção do avião teria sobre o desenvolvimento da indústria nacional. O econômico e limitado Gripen – adequado à defesa de paises de território pequeno –  também desbancara  rivais de peso na concorrência da aeronáutica suíça, tendência de racionalização dos gastos militares entre países pacifistas e endividados.

O grande desafio do próximo ano é azeitar o funcionamento da economia global e deixar surgir novas rotas em um novo mapa de prioridades. São desacertos de um mundo desenhado para ser liberal, mas onde a soma das partes teima em não deixar o todo ultrapassá-la em grandeza.  A falta de sustos maiores na economia mundial em 2013 não quer dizer, contudo, que os países podem continuar devoradores da esperança de toda uma geração de jovens sem futuro.

Se crises econômicas e oportunidades perdidas entristecem e roubam noites de sono, a mais cruel das mancadas humanas continua a solta por aí revoltando muito mais. As migrações cresceram assustadoramente e as guerras civis ocorrem em dezenas de países – com uma parte considerável desses conflitos internacionalizada pela participação de forças estrangeiras. A nota de consolo para o ano que se inicia é que se nossa sociedade parece cada vez mais em contato com brutalidades, o fato contraintuitivo é que o número de mortos em campos de batalha ou em conseqüência de guerras nunca esteve tão baixo. Isso, aliás, se insere num panorama maior de uma tendência de queda secular da violência retratada pelo cientista Steven Pinker, para quem seu declínio provavelmente “é o desenvolvimento menos apreciado na história de nossa espécie”.

O mundo não piora, nossa expectativa em relação a ele é que se torna cada vez mais dura. Se somos menos violentos que nossos antepassados e ainda assim nos cobramos queda maior da barbárie, podemos concluir que essa angústia é nossa maior qualidade: desejar sempre viver em paz. É o que desejo a todos em 2014.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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