O presente de Putin

O presente de Putin

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 22 de fevereiro de 2015.

Para ser democrata é preciso destruir no governante a propensão de ser um deus. Especialmente porque grandeza e desgraça andam juntas na política das nações.A simbologiaexpressa por Vladimir Putin ao dar de presente um rifle Kalashnikov AK 47 ao militar linha-dura Abdel Fattahal-Sisiem sua recente visita ao Cairo é mais do que mau gosto. O jeito teatral de Putin de fazer política internacional aumenta vendo-se acuado. Um teatro de recados e balés controversos com Estados Unidos, China e União Europeia.

A OTANronda suas fronteiras;o declínio populacional está a beira das famílias russas; o mercado mundial distante das suas empresas sem marca e sem escala.   A Rússia de Putin se agarra a indústria de armamentos como um pilar fundamental da estratégia de manutenção de sua relevância e poder. Criar demanda por armas, no entanto, é inglória ocupação.

A venda internacional de equipamentos militares teve seu ápice em 1982, com EUA e URSS disparados na frente como maiores produtores e exportadores. O colapso da União Soviética estancou a corrida armamentista e expôs a fragilidade da produção russa. Desde o final da Guerra Fria as companhias americanas e europeias de armas dominaram o mercado mundial, com a Rússia fazendo volume com vendas mais baratas. Nos últimos anos, no entanto, o esforço organizado da Rússia em modernizar e dar impulso às suas companhias bélicas tem tido sucesso.

De acordo com os estudos do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI) não só a participação russa no comércio global de armas tem aumentado com consistência, como suas empresas têm melhorado suas posições entre as maiores do mundo nessa indústria. A fatia russa do mercado global de armas subiu de 17% no período que vai de 1997 a 2001 para 27% entre 2009 e 2013. No meio do caminho, entre 2001 a 2005, grandes contratos com China e Índia levaram a Rússia a atingir 31% do mercado global. Mas o mercado de armas também sofre transformações, com a China mostrando que passará de compradora a vendedora como vem fazendo em todos os setores.

Os gastos domésticos previstos no turbinado orçamento que a Rússia reserva para sua defesa dão a sustentação inicial para afranca expansão da produção, mas as exportações são fundamentais para a sustentabilidade da empreitada. Não há mais esforço de guerra do tamanho que existia na URSS, e a economia doméstica é cativa de uma transição que não anda bem. Guerra e dinheiro têm que virde fora para que a Rússia fique em pé.

Assim, Putin quer combinar dois esforços: garantir mercado para suas armas e, sorrateiramente, desenhar os contornos da posição russa no século XXI. Uma posição que ficará mais segurase o mundo ficar um pouco mais inseguro. Putin entende que a inércia é um mau negócio para a Rússia.

Essa aceitação da inércia foi testada com as sanções ocidentais impostas a Moscou por conta da questão ucraniana. Visando minar sua indústria de armas, o embargo produziua esperada reação de Putin que saiu pelo mundo misturando acintosamente questões geopolíticas com a busca por gordos contratos de defesa.Suaida ao Cairo com uma AK-47 na bagagem demonstra a intensidade com que Putin joga o jogo.

Não é só a Rússia que ganha dinheiro vendendo armas e que move mundos e fundos para que precisem comprá-las de seu país. Mas a Rússia voltou a fazer isso com uma mentalidade de guerra fria. Não mais contra os EUA, mas contra o futuro. Pois o futuro mostra uma Rússia vazia e espremida entre União Europeia e China. Um vazio insustentável que não será preenchido sem atos de virtude.

O presente de Putin pode ser uma má adaptação russa à lógica dos mercados.No bojo das sanções impostas ao país a importação de AK-47 está proibida nos EUA. As sanções ainda não fizeram mais do que cócegas na indústria de armamentos russa como um todo. Um dia poderá incomodar por falta de parcerias tecnológicas para equipamentos mais avançados, mas não para o que já existe. Provocador como anda, pode levar a AK-47, o icônico rifle de assalto,a ser produzido pela primeira vez em território americano.A arma, idealizada na cidade de Ijevsk,parte oeste dos montes Urais, tem um público cativo entre os civis americanos. Quando foi anunciada a proibição da importação de Kalashnikovs autênticas para os EUA, a demanda pelo rifle explodiu e muitos o compraram como investimento especulativo.O grupo que detém o direito de uso da marca nos EUA pretende ir além já que o país é de longe o maior mercado de armas para civis do mundo.

Enquanto isso Putin vai presenteando com a arma com a qual até não faz tanto dinheiro,mas o ajuda na propaganda das guerras que ainda precisa.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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