O SERVO-ARBÍTRIO

O SERVO-ARBÍTRIO

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 24 de julho de 2016.

Nenhuma sociedade oferece hoje ao mundo experiências jurídicas coerentes. As contradições da vida, por razões internas e externas, não permitem mais que a lei corresponda ao que os indivíduos querem para si. Não é mais o cidadão que determina o modo de sua vida segundo seu livre-arbítrio. E, é possível dizer, que muitos não se dão conta de que estão felizes com sua opressão. A confusão tomou conta do raciocínio e, por isso, não é pilhéria o que ouvi outro dia:   que pena eles não terem construído as grandes cidades no interior – a vida lá é tão mais calma!

O mais antigo romance chinês começa afirmando que “o império, por muito tempo dividido, deve ser unido; por muito tempo unido, deve ser dividido. Porque assim sempre o foi”. Alberto Alesina, autor de livro sobre o tamanho das nações, lembra que tal tamanho vem de um delicado equilíbrio entre os benefícios que oferece e os custos que nascem das diferenças dentro de sua população. A China é a maior especialista em insuflar a percepção do benefício que o governo oferece ao cidadão obediente e, por outro lado, saber lidar de forma conservadora com as diferenças incontroláveis de sua população. Os chineses sustentam seus 1,3 bilhão de habitantes, com um rígido sistema de passaporte interno conhecido como hukou. “É ótimo sermos gigantes, mas controlamos o gigante ao extremo”, todo o dia, parecem dizer. Uma das mais praticadas formas do hukou é direcionar as massas camponesas para onde o governo acha que são necessárias.

O número de bons países no mundo para viver tende a aumentar quanto mais convincentes forem as seguintes características: segurança, educação, livre-comércio, democracia. Quanto maior for a forma errada do Estado usar a força e o convencimento sobre seus cidadãos, mais incentivos terão seus habitantes para sair em busca de um outro Estado, que forneça tal tranquilidade mínima. Tranquilidade de que há proteção da vida contra violência; que a esperança seja um componente da política e da economia; de que as promessas feitas são cumpridas; de que a propriedade não esteja sujeita a questionamentos e subtrações “constantes e sem limite”. As pessoas buscam paz e prosperidade, e não isolamento e temor constante. Se organizam para criar tal situação, vão em busca de onde ela exista, ou são alcançadas por ela. Aceitam as leis compreensíveis, as emergências, mas não são felizes se tiverem que se submeter a tudo, como subcidadãos sem saída, só dispondo de servo-arbítrio.

O mundo em que vivemos é fruto de muitas causas. Três delas, das mais antigas, são a violência, a esperança, e a migração. Tragédia moderna que reuniu novamente as três, muitas pessoas terão suas histórias interrompidas precocemente se não buscarem paz para além de suas fronteiras.

Todo dia duas mil pessoas cruzam em desespero o Mediterrâneo em direção à Itália, muitas morrem nessa jornada. São 60 milhões de pessoas fora de suas casas a contragosto no atual momento mundo afora. Há uma maciça crise global de deslocamentos humanos como não vista desde a Segunda Guerra Mundial. Desses 60 milhões a maioria ainda está dentro de suas fronteiras nacionais. Mas se são 20 milhões os refugiados em outros países, os desejosos por tal condição são muitos mais.

Os países estão sempre caminhando para formas de  guerra civil, ou de exílio.  Muito tempo de união política sem atenção ao que se passa na cabeça e no coração do ser humano, leva à dissolução.  Muitos países acham que é possível viver melhor sem precisar de conviver com mais gente, gente diferente. Os condomínios privados podem ser microcélulas de países isolados.  Uniões e divisões dentro e entre os países, ocorrerão como sempre, mas cada vez mais se o mundo não acordar.

“Nenhum homem é uma ilha. Cada homem é um pedaço do continente, Uma parte do todo”, escreveu John Donne, o poeta contemporâneo da sanguinária Guerra dos Trinta Anos que minou a glória do Sacro Império Romano-Germânico. Amós Oz, vivendo a maior disputa territorial das últimas décadas – entre Israel e Palestina – lembra Donne para dizer que os seres humanos podem não ser ilhas, mas são penínsulas. Com uma parte ligada ao continente, mas com espaços para se sentir livremente voltada ao mar por quase todos os lados. Diz Oz que “todo sistema social e político que faz cada um de nós ser uma ilha, e o resto da humanidade um inimigo ou rival, é um monstro. Mas, ao mesmo tempo, todo sistema social e político e ideológico que quer fazer de nós não mais do que uma molécula do continente também é uma monstruosidade.”

Península é o que deveríamos ser. Ora gregária, ora isolada, como sempre o foi, mas sempre ligados na realidade da maioria.

 

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 PAULO DELGADO é sociólogo

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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