Os Cinco Olhos de Obama

Os Cinco Olhos de Obama

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 3 de Novembro de 2013.

Os EUA parecem ser, aos olhos de todos, definitivamente culpados. Como Édipo Rei, não se opõe ao seu destino. Neuróticos da ideologia liberal vivem essa angústia dos povos anglo-saxões: alucinados pela mãe pátria fizeram da rivalidade pelo mundo não-inglês a luta permanente para decifrar o enigma do poder e seu complexo personagem político, o “macho” governamental que atormenta o inconsciente das democracias. Mas os EUA não são os histéricos da psicanálise freudiana: não perderam o controle do universo, não deixaram de ser cristãos, não entregaram seu narcisismo ao controle dos outros. Pelo contrário, os países que reclamam e respiram a contragosto podem estar com vergonha de não serem os culpados.

Nas últimas duas semanas o caso do aparato de espionagem global da NSA estacionou no Atlântico Norte. Mas o que parece ter virado briga de cachorro grande é na verdade boa e velha briga de comadres. As noticiadas 60 milhões de ligações coletadas no período de apenas um mês na Espanha juntaram-se às 70 milhões mensais na França e às 500 milhões de coletas – entre e-mails, telefonemas e mensagens de texto – efetuadas na Alemanha. Os números impressionam, mas não devem ser tomados como mostra fiel da esfinge toda, já que são seleções de informação decididas ao sabor dos folhetins. E da fúria teatral própria da hipocrisia dos casamentos arranjados entre nações.

O que é importante é que os Estados Unidos dispõem de tecnologia e poder político para realizar esse monitoramento e não abrem mão de fazê-lo.  Debater publicamente a ousadia é que é a novidade. E desista de entender se você está pensando em tanques, aviões e energia atômica. Fazer o mal para se sentir vivo não é o que mais conta. PIB, tecnologia, instituições e produtividade são exceções mais interessantes do que a regra. Quem foi espionado, mas não tem capacidade de afetar resultados políticos mundiais ou regionais, já foi deletado. Não se arquiva ignorância, somente propósitos.

A administração Obama será chamada a decifrar suas explicações  sobre as razões de seu entusiasmo por coleta de dados. Apesar das condescendências que certamente mostrarão a potências amigas, dificilmente mudará de ideia no que concerne ao núcleo das ações, por duas razões: primeiro, eles acreditam no que fazem e creem ser temeroso deixar um vácuo nessa área (afinal, vácuos são sempre preenchidos em ambientes abertos); segundo, eles sabem que não há santos nessa discussão sobre a primazia de uma nação devorar a outra. Afinal, Washington tem claro que começou o uso da opinião pública para provocar certo nivelamento no jogo da espionagem internacional, reduzindo a vantagem americana.

Os buracos nessa história sobre a alardeada exceção americana em termos de espionagem não tardarão a aparecer. Aliás, uma semana após o periódico francês Le Monde publicar sua primeira reportagem baseada nos dados vazados sobre os 70 milhões de telefonemas interceptados na França, o jornal parisiense mostrou que empresas francesas lucram vendendo tecnologia de monitoramento e espionagem para regimes dispostos a pagar (caro) pelo serviço.

Na espionagem promovida pela NSA o motivo maior da reclamação mundial não é pelo grosso da interceptação de comunicações que os americanos realizam sobre aqueles que são seus aliados. Mas sim pelo uso de um poder político sem partilha, sem o qual os EUA não seriam capazes de romper certos limites. Inclusive o da sinceridade, pois quando se age sem receio toda desculpa é hipócrita.

O sentimento (e a convicção) dos norte-americanos é que os países europeus não tem uma escuta no BlackBerry de Obama não é por não tentarem e sim por não conseguirem. E se não chegam a tentar para valer é por medo do desenlace político de tal descoberta. E é exatamente aí que reside a raiva da Europa continental: os EUA só fazem isso porque são o único país que ignora o custo político de uma ação hostil a aliados. E o fazem por cortejar sem assombro o papel de guarda noturno do mundo.

Agora, devagar com a hipocrisia. Pergunte aos europeus e aos mandarins em Pequim se espionam os EUA e eles dirão que não, sabendo claramente que estão mentindo. No desenlace do quiproquó europeu o mais provável é agravarem a situação para forçar a entrada no seleto grupo, até então anglófono, que compartilha esse tipo de informação com os EUA. Céticos em Washington já se perguntam se não seria melhor oferecer de cara um quinhão à França e à Alemanha no clube dos “cinco olhos” de americanos, canadenses, britânicos, australianos e neozelandezes.

A democracia é um empreendimento jurídico-comportamental mais do que um mito do teatro antigo. Vigiar seus vigilantes é que continua uma tragédia.

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PAULO DELGADO

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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