Os Eurocéticos

Os Eurocéticos

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 3 de fevereiro de 2013.

A Grã-Bretanha não quer ser parte de um país chamado Europa. Essa é a certeza de uma influente ala do Partido Conservador que levanta com renitência a bandeira contra a União Europeia (UE). Um mal-estar associado ao Partido Trabalhista no passado, hoje tornou-se suprapartidário e agrada boa parte dos eleitores do país. Mas quando o primeiro-ministro David Cameron veio a público cumprir a ameaça de que faria um referendo a respeito da permanência britânica na UE, sobre suas palavras pesavam, diretamente, a opinião dos líderes de seu partido e apenas transversalmente a dos eleitores em geral. O que realmente aflige o povo britânico não são questões ideológicas sobre independentismo, mas a crise que não passa. Cameron – que de fato não ganha nada para a Inglaterra se os eleitores decidirem cortar o laço com a UE – comprou um jogo perigoso e malicioso. Um ardil em que espera, por um lado, determinar um culpado fora do governo para os problemas do país e, por outro, aumentar seu poder de barganha com os vizinhos continentais.

Se a Europa bater pé, aguentar cinco anos de chantagem e deterioração econômica, e a Grã-Bretanha realmente jogar a toalha, deixando a UE, o tiro de Cameron terá saído pela culatra. A malícia de Cameron é que ele sabe que ninguém aguenta mais cinco anos de deterioração econômica.

O que faz o estrago no humor britânico é a falta de crescimento econômico cuja culpa põe em Bruxelas (sede da UE) e suas regras inflexíveis e não competitivas. Como é crescente a má vontade dos britânicos com o enredo político que rege o ardor inócuo das medidas para aplacar a crise – que, estão certos, tem muito a ver com a má gestão econômica e fiscal na Europa–, Cameron busca impor sua ideia sobre qual a melhor receita para se afirmar na competição econômica global.

A UE precisa avançar sua construção institucional, mas disso os britânicos não querem saber. Querem salvaguardar Londres como principal centro financeiro da Europa, e de olhos abertos para o resto do mundo. Não podem, pensam, dar-se ao luxo de pôr em risco o arranjo econômico que vêm consolidando desde os anos 80. Além do mais, há um pendor histórico à desconfiança generalizada em relação ao continente. Agora agravado pelo discurso de que nem sempre os impostos do contribuinte britânico gasto com a integração são aplicados em coisas relevantes. Finalmente tem-se uma conjunção de interesses explosivos: o encontro da ambição dos magnatas com a impaciência do povo tornam turbulentas as águas do Canal da Mancha.

De pouco adiantam discursos de alerta ao Reino Unido sobre o tempo que perde discutindo a estrutura da União Europeia quando poderia influenciar mais na integração e até liderá-la, como diz Philip Gordon, o vice-ministro de Assuntos europeus do governo norte-americano. Esse senhor anda visivelmente irritado com o ambiente vivo e paralisante da política europeia. Esqueceu-se da constatação de Henry Kissinger, que dizia não saber com quem falar quando queria falar com a Europa. Menos ainda adiantam as insinuações de Gunther Krichbaum, presidente da comissão de assuntos europeus do parlamento alemão, quando diz que o referendo fará menos estragos nos esforços de integração do que aumentará o isolamento do Reino Unido.

A “raça inglesa” de Churchill sabe o que é viver sob pressão, mesmo quando a guerra é a “corrida global” de Cameron. E aqui, a Grã-Bretanha supõe-se impedida de correr a todo vapor por estar amarrada à Europa. É na divergência de interesses do euro e da libra esterlina que as questões se complicam. Elas interferem de forma direta na relação com a atividade que os britânicos mais sabem fazer atualmente: praticar com desenvoltura a livre circulação da moeda e a competição dos serviços financeiros e bancários em geral.

Os resultados económicos após uma década e meia de eurozona são bastante variados. Os custos de transação diminuíram, mas os desequilíbrios regionais cresceram. O comércio teve alta de 15% dentro da área, mas não triplicou como esperado. Além disso, as instituições atuais não dão conta de gerir, de maneira eficaz, ciclos econômicos expostos a choques assimétricos. O mundo anglo-saxão sempre subestimou o desejo da Europa continental de fazer o euro, e esta, por sua vez, deu pouca importância aos custos da união monetária.

A questão politicamente relevante de toda a polêmica, e que põe Londres a meditar, não é o direito à crítica que vem fazendo à Europa ou a insistência no direito à livre manifestação do seu eleitorado. O que conta mesmo é que, no fundo, uma Inglaterra fora da Europa perde status e influência. Porque, além de não ser mais possível no mundo atual alguém se sentir habilitado a fazer o que quiser como prefere, em política, uma independência muito clara é uma independência sem futuro.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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