OS SANDINISTAS

OS SANDINISTAS
Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 18 de outubro de 2015.

O segundo país mais pobre do hemisfério ocidental, a Nicaragua, é dono de uma das mais agitadas histórias políticas do continente americano. No início do século XX, Augusto Sandino liderou um bem sucedido levante contra o governo fantoche mantido pelos EUA na Nicaragua. A fim de defender seus interesses, o então Presidente Coolidge enviou 6.000 Marines para o país em uma missão típica de velho-oeste: capturar Sandino, vivo ou morto. Sem sucesso. A depressão dos anos 1930 acabou contribuindo para a vitória do revolucionário nicaraguense sobre os americanos que bateram em retirada no final do mandato do Presidente Hoover. Em 1936, entretanto, ele acabaria morto por homens de Anastásio Somoza, que deu origem a uma brutal dinastia derrubada apenas 44 anos depois pela Revolução Sandinista.
Nomeada em homenagem a Sandino, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), esteve no epicentro dos principais acontecimentos relacionados à Guerra Fria na América Latina nos anos 1980. Sacramentou, também, o ocaso da Revolução Sandinista. Passados muitos anos e algumas frustrações eleitorais, Daniel Ortega, principal líder dos Sandinistas, voltou ao poder pelo voto. Desde 2007 ocupa a presidência em Managua, cuidando de programas sociais sem fundamentos econômicos, como é da tradição da esquerda latino-americana.
Às voltas com a administração de um país aplacado pela miséria, Ortega começou seu mais ambicioso plano em 2012. Um grande canal bi-oceânico para rivalizar com o Canal do Panamá. Rapidamente a concessão foi entregue a uma Companhia de Investimentos encabeçada pelo bilionário chinês, Wang Jing. Iniciada em dezembro de 2014, a obra terá grande impacto no meio-ambiente local. Também, por isso, é alvo de grupos de pressão que buscam inviabilizar sua conclusão. Cortando o país de oeste a leste, unindo o Pacífico ao Atlântico, e possibilitando a navegação de gigantescos navios com mais de dezoito mil contêineres ao longo de 277 quilômetros, é obra que não sai do papel sem alterar politicamente a realidade. A sustentabilidade ecológica está sempre em segundo plano no mundo e a melhoria das condições de vida local, quem sabe Deus ajuda!. O que está realmente em questão é a economia geopolítica da construção.
Empresas chinesas parceiras da empreitada, de 50 bilhões de dólares, teriam por 50 anos uso preferencial da infraestrutura, algo que pode ser expandido por outros 50 anos mediante aditivo. Junto ao direito de construir e operar somam-se empreendimentos imobiliários, aeroportos, indústrias, etc, ao longo do canal. Os termos de concessão incluem na prática cessão de soberania. São as controversas iniciativas “liberais” iniciadas por seu vizinho ao norte, Honduras. As Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDE) propostas pelo governo de Tegucigalpa se baseiam nas ideias de Paul Romer e suas cidades autônomas. Na Nicarágua o governo é mais afeito à gramática chinesa, enquanto o de Honduras às ideias americanas. Ambos sabem que são incapazes de resolver seu subdesenvolvimento crônico. A tentativa Hondurenha por enquanto naufraga na corrupção local, que afugentou o americano Romer. A China, por outro lado, parece mais afeita ao papel de imperialista do Século XXI.
As ideias de Romer, influenciadas pela história da relação da China com a Hong Kong, valem para os dois. Elas abordam o sistema econômico mundial repensando e redesenhando o lugar de um país dentro de tal sistema, a partir do benefício mútuo. Algo como um país jogar pelas regras do jogo do outro até o ponto em que passaria a ussufruir dessas regras. As possibilidades a disposição são, entretanto, determinadas pelo ambiente e as fronteiras tecnológicas são realidades cabeçudas. Desafiá-las é custoso e ineficiente. Muito mais eficaz é balancear o uso das ideias (e do capital) dos outros com o desenvolvimento crescente de suas próprias. Isso é, afinal de contas, o que toda e qualquer sociedade de sucesso fez e faz.
Pouco antes de se completar um século de Sandino expulsar o imperialismo americano, um governo Sandinista opta por entregar a soberania, de fora a fora, em parte significativa do país. E espera, que a potência estrangeira escolhida, traga o desenvolvimento. Ortega clama contra o capitalismo selvagem quando vem por mãos americanas. Com o mesmo fervor defende os interesses das multinacionais chinesas escoradas sob o “socialismo com características chineses”. A velha esquerda saudosa do ouro de Moscou. Mas, trata-se de fato, de capitalismo. E imperialismo, também. Esqueça o discurso. É a trágica realidade que faz o camarada aceitar os fatos.

*****

PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *