QUAIS SÃO OS SEUS DEFEITOS?

QUAIS SÃO OS SEUS DEFEITOS?
Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 26 de Julho de 2015.

Estou em Pequim, de onde acompanhei nos últimos dias, as notícias das mortes de Wan Li e Qiao Shi, ex-presidentes do Congresso Nacional do Povo. É o fim do crepúsculo de uma geração. Wan faleceu aos 98 anos, após a morte de Qiao Shi, ex-futuro líder máximo da China, preterido nos anos 90 por Deng Xiaoping na escolha do seu sucessor. Nem Qiao, nem Wan conseguiram evitar os protestos que provocaram o massacre da Praça da Paz Celestial. Na verdade, ambos estavam entre aqueles favoráveis ao diálogo com os estudantes. Foram enquadrados pelos lideres que temiam que o Partido Comunista Chinês vivesse a mesma crise que acabaria com a União Soviética.
No calor do momento, Deng formulou a compreensão de que os rompimentos no Leste Europeu eram inevitáveis. E que somente com políticas de reforma capitalista a China poderia ter esperanças no futuro. Capciosamente, Deng associou essa nova estratégia de enriquecimento do país à dupla ideia de que a China precisava se abrir para o mundo e o Partido Comunista precisava ser preservado.

O Estado forte dos comunistas era visto como uma solução frente a um momento de vida ou morte da instituição política máxima do país. Decisão tomada, Deng incumbiu Jiang Zemin, futuro presidente, de segurar Wan, que retornava de viagem à América do Norte, em Xangai, até que ele endossasse a aplicação da lei marcial contra os jovens. A capacidade de atuação e o alinhamento do líder de Xangai ao pensamento de Deng foram provados. Depois do episódio o poder foi entregue a Jiang Zemin que deu à China a presença internacional que consolidou o desenvolvimento superior da nova Ásia. Poucos dias antes da solução de massacrar os estudantes fui devolvido do aeroporto de Pequim para Nova Iorque sem poder descer do avião ou saber direito o que de fato ocorria. Mesmo convidado oficial do governo, não era tempo de diplomacia.

Além da postura mais aberta ao diálogo com os insatisfeitos com as instituições políticas do país, Wan Li era também um corajoso reformador liberalizante das estruturas econômicas. É especialmente celebrado pelo desmantelamento das super improdutivas propriedades rurais coletivas. Seu tino para melhores práticas econômicas, todavia, lhe custou caro. Sofreu severamente durante a Revolução Cultural, sendo objeto das famosas sessões de autocrítica em praça pública seguidas de envio para prisão e trabalhos no campo. Mais severas violências sofreu Qiao Shi, que, apesar de todas suas credenciais revolucionárias, sempre foi preterido.

A entronização da Ásia no jogo superior das nações foi iniciada de forma humilhada pelo Japão depois da 2ª guerra Mundial, mas ofertada graciosamente à China pelos Estados Unidos como nação preferencial nas suas relações econômicas, comerciais e financeiras na região. E deve muito isto a gente como Wan Li. Líder que jogava regularmente tênis com George Bush pai, quando o último serviu como diplomata em Pequim teve que ceder sua vez ao mantra de Deng de que “enriquecer é glorioso”. Deng, com o crescimento vertiginoso do país que se seguiu , fez do PCC a mais nova Dinastia chinesa.

Mas a China se movimentou em direção à prosperidade e à mudança de costumes confrontando, permanentemente, as necessidades econômicas com os dilemas morais dos governantes. A riqueza para todos se acentuou nas mãos de alguns. Nas democracias, a lei igual para todos nem sempre bloqueia desejos de acumulação privada dos bens públicos. Nos regimes fechados são campanhas de esclarecimento ou repressivas que tentam sustentar seus princípios.

A resignação e a indiferença, que contaminam sociedades onde o progresso é difícil ou inconstante como no Brasil, não atingiu a gigantesca China por causa da força da personalidade de seus governantes que travam uma disputa constante com as carências e dificuldades de clima, terra, água e costumes milenares de seu povo. Na Ásia, ninguém se supera com improvisação e comodidade.
É com método e objetivo, que os governos chineses, desde os anos 80, quando estive aqui pela primeira vez, impõem um rumo contínuo ao progresso do país. No início um povo vestido com um pano de uma só cor, dono de duas coisas essenciais – primeiro um fogão e uma bicicleta, depois uma escola primária e uma geladeira, rumo ao satélite e o antibiótico.

Hoje, o controle de qualidade da política, é feito através da visita inesperada que Xi Jinping, o presidente atual, faz a autoridade local – prefeito, juiz, policial, governador – com a pergunta constrangedora : Quais são os seus defeitos ? Eis a releitura introduzida por Pequim da prática da “crítica e autocrítica” do poder e da autoridade que, infelizmente, a autoridade nacional brasileira anda sem moral para fazer e a local ou regional, com vergonha de responder.

PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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