WALTZING MATILDA

WALTZING MATILDA

Estado de Minas e Correio Braziliense – domingo, 3 de Novembro de 2014. 

14 de novembro será feriado em Brisbane, simpática cidade da costa leste da Austrália. A folga extraordinária da sexta-feira ocorre para que a população da cidade pegue o rumo das praias ou do interior do estado de Queensland, para dar lugar à caravana de engravatados e vestidinhos discretos que chegarão à ensolarada cidade em comboios de sedans escuros. Parte da população local reclama do feriado. Alguns comerciantes reclamam dos prejuízos que terão naquele final de semana. Em contrapartida, a administração local alega que os benefícios de longo prazo serão muitos e que de imediato os ganhos econômicos são maiores do que os prejuízos de tal final de semana atípico.

Bem, virou moda mundo afora mandar os moradores locais para casa para não incomodar visitantes midiáticos. Um marketing imperdível que ajudou o Brasil a dar a impressão que funcionou bem na Copa. O problema é que, além do feriado, outros apetrechos de gosto duvidoso terão que ornar a cidade, como, por exemplo, uma corte extraordinária de justiça que passará a operar uma semana antes, preparada para efetuar prisões em massa advindas de distúrbios esperados.

O que será que chega, esvazia uma cidade e precisa se preocupar com o ódio dos que ficam e para ela afluem mesmo desestimulados? A percepção do poder representativo na berlinda. Pois tudo isso é para que Barack Obama, Xi Jinping, Shinzo Abe, Angela Merkel e os demais representantes máximos das maiores economias do mundo se encontrem na derradeira reunião do G-20 em 2014. Um ano fracassado para o multilateralismo e complicadíssimo mesmo para entendimentos regionais sobre caminhos plausíveis e benignos para a economia global. Especificamente, mais um ano em que o G-20 não conseguiu alcançar relevância suficiente, lançando por terra muitas das persistentes apostas otimistas sobre o que desesperadamente necessário. Curioso inclusive, nesse cenário de fracasso retumbante, entender porque eventuais protestos circundariam o encontro de líderes que nada decidem, senão por animosidades leões sem dentes de fato.

De qualquer forma, apesar de todo o pessimismo que se justifica antecedendo a reunião que se aproxima, o G-20 continua sendo o fórum global com maior potencial de sintetizar e tratar as demandas do presente século. Todavia, pode ocorrer de abrirem mão dele para se chafurdarem em políticas que tendem a remontar ao longo período de procurar mais empobrecer o vizinho do que enriquecerem juntos. Inegável que o mundo é um moinho que dá voltas e tritura sonhos, nem sempre os mais mesquinhos. Infelizmente.

A crença numa paz duradoura entre as nações através da integração econômica é um belo sonho enxertado durante as últimas duas décadas, mas que certamente será abandonado. De 2008 para cá esse corpo não-institucionalizado – uns burocratas, outros grotescos, pouquíssimos líderes de fato – passaram a querer tratar de questões da gestão econômica e financeira do mundo. Tentaram fomentar, pelo diálogo e a busca do compromisso, um ambiente de maior previsibilidade, equilíbrio e harmonia. Um mundo sem governo, mas com governança: é o que os entusiastas desse tipo de arranjo propõem. Tal concerto, entretanto, é mais conhecido pela sua confusão.

Se Brisbane está assustada, tudo remonta modernamente a Seattle durante seu encontro da OMC em 1999. O encontro de Seattle selou todos os últimos anos de conversa a respeito do aprofundamento do comércio global. Todo mundo que estava de terno foi xingado, inclusive eu, que fazia parte da delegação brasileira. Lá Bill Clinton tremeu e deixou a globalização ao relento entregando-a como filho feio à fúria das massas especializadas em passeatas. Um bem-querer que vinha no embalo de uma onda de expansão do investimento internacional para além dos campos receptores tradicionais do século XX.   Afinal, como diria o professor indiano radicado nos EUA, Jagdish Bhagwati, se multinacionais te atordoam hoje pense na força de uma Companhia da Índias Ocidentais e se acalme.

Aos maus humores gerais some-se que a crise de 2008 desviou o mundo de sua trajetória de uma forma que está difícil de reverter. O mau funcionamento da economia global é agravado por desentendimentos políticos entre os países. A despeito de toda pompa, o fórum itinerante do G-20 pode bem ser embalado em Brisbane ao som da melancólica balada folclórica local Waltzing Matilda. Som nacional de uma ilha remota à qual acorrem índoles aventureiras ou azaradas de variado caráter, esperançosos ou não, mas todos suprimidos pela reinante melancolia que envolve à procura patética dos seres humanos pela dignidade da vida.

Ao se encontrarem um final de semana para traçar o futuro, líderes que nada sabem do presente, para onde pretendem nos levar ??

 

PAULO DELGADO é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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