À espera de um erro

À espera de um erro

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 15 de dezembro de 2013.

Na despedida de Nelson Mandela, chamou a atenção do mundo o que pareceu um prosaico aperto de mãos ofertado por Obama a Raul Castro. O significado do gesto de boa educação foi, contudo, questionado por parte destemperada da opinião pública americana. Não foi, todavia, espontâneo. O cálculo de Obama foi melhor do que o de seus detratores. A aparente reconciliação adornou o evento em honra da memória do campeão da reconciliação .

A história do mundo  oscila entre conflitos e reconciliações. Se o conflito entre os EUA e Cuba já está perdido na história, a reconciliação teima em não vir. São rancores e ressentimentos que vão se arrastando e se assumindo como casos crônicos. Se já fazem mal à vida no mundo os que protelam a reconciliação, pior ainda são aqueles casos em que se busca o conflito.  Aliás, é próprio da atividade: o maior esforço a que se dedica a política é o de desvirtuar e agravar o que faz o oponente.

É justamente o que fazem agora dois grandes ausentes no funeral de Mandela: os líderes máximos de Japão e China preferiram continuar engarrafados no  trânsito de Tóquio e Pequim. A motivação principal para não irem são reuniões, o esporte preferido dessa gente. Sobre reformas na economia doméstica, para o presidente chinês, Xi Jinping, e sobre incrementação do comércio e da integração regional, para o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe.  Dois líderes consumidos pelo fato de verem seus países cada vez mais obcecados um com o outro, capturados por sentimentos destrutivos. Cativos desse sentimento que joga com a possibilidade do conflito, até suas preocupações econômicas obedecem a uma lógica militarista. E não têm tempo para ir a enterro na África .

É difícil acreditar que China e Japão possam realmente ir às vias de fato por conta de um punhado de rochas desabitadas. Mas, como em outros casos de desamor, as rochas são mero pretexto para afirmarem seu desejo de submissão do outro. Para bem ou para mal, a acirração ou a tranquilização dos ânimos no leste asiático podem ser influenciadas por um terceiro interessado, que é justamente os EUA. O Japão dificilmente entraria em confronto com a China sem o apoio americano (apoio que ele tem, a princípio, de forma integral, por força de tratado). De igual forma, só sendo muito inconsequente para a China enfrentar nos próximos vários anos um Japão apoiado pelos EUA. No fim das contas, o fiel da balança é os Estados Unidos. Só o tempo dirá se a superpotência americana soube ser sábia. Como a relação com o Japão é umbilical e os nipônicos não geram mais desconfiança em solo americano, o que é mais incerto é o modo como dará sequência em sua relação com a China. Grosso modo, há duas linhas de pensamento nos EUA: uma, crescente, dos que querem endurecer com a China o quanto antes, e outra dos que julgam que os ajustes e limites atuais têm que ir se adaptando de forma a respeitar o crescimento natural do poder e da influência do gigante asiático – ou seja, que não se deve endurecer com a China, mas simplesmente ir conformando sua expansão a espera de um erro.

Ambas as correntes compartilham uma interseção majoritária que acredita no conceito de “Evolução Pacífica”. Divergem sobre quão robustas e claras devem ser as pressões sobre Pequim, mas no fundo creem sempre estar trabalhando para que a autocracia vermelha adote os pontos fundamentais da ideologia americana. E é justamente aí que as coisas ficam mais sensíveis. Os líderes chineses têm profunda aversão ao conceito de evolução pacífica. Forjados pela estrela de Deng Xiaoping, os últimos três presidentes da China têm diferentes opiniões sobre a velocidade dos passos das reformas econômicas, mas não questionam a necessidade de fazê-las. Contudo, todos eles, também à imagem de Deng, não questionam a fundamental importância da manutenção do poder no seio de seu partido único. A partir da era Deng, consolidada com o colapso do comunismo na Europa, a China transformou, a partir do estudo dos erros alheios, seu partido leninista em uma estrutura de rara proficiência e complexidade. As mudanças que permite na economia são como a segunda parte da famosa frase de Lampedusa: “se queremos que as coisas permaceçam como estão, as coisas terão que mudar”. A resiliência do sucesso da mudança chinesa até aqui, entusiasma e espanta.

Apesar disso tudo, há muito mais convergências possíveis entre EUA e China do que muitos gostam de assumir. A China quer aprender e copiar muito mais coisas ocidentais e, especialmente, americanas, nesse seu caminho ao posto de superpotência global. O que a China não quer nem ouvir falar é das trapalhadas de Gorbachov e do fantasma da União Soviética.

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PAULO DELGADO

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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