A Grande Ilusão

A Grande Ilusão

Correio Braziliense e Estado de Minas – domingo, 9 de Março de 2014.

“Nem mesmo um camundongo se moveria na Europa sem a nossa permissão”, disse certa vez o Kaiser Guilherme II para o rei Eduardo VII, seu tio. O cenário imaginado pelo imperador alemão no início do século XX, de uma aliança entre a sua Alemanha e o Reino Unido, contudo, nunca se realizaria. Inclusive por causa de sua própria desconfiança para com os britânicos.

Em 1910 Eduardo VII morreu deixando seu país aliado à França, velha inimiga com a qual travara intermináveis batalhas, e à gigantesca Rússia. Curiosamente, o caminho para os entendimentos entre russos e ingleses passava por relevar os dessabores que os opuseram na Crimeia, essa mesma Crimeia que voltou à cena nos últimos dias.

A realeza europeia sempre foi interligada por laços de sangue, mas as conexões familiares de Eduardo, chamado com precisão de “o tio da Europa”, eram peculiarmente vastas. Além do kaiser alemão, o czar e a czarina da Rússia, mais as rainhas da Espanha, da Noruega e da Romênia, eram todos sobrinhos do rei inglês. Se os laços de consangüinidade serviam para de certa forma estabilizar e manter as estruturas de poder, eles nunca foram suficientes para acalmar a multi-fragmentada Europa.

“Ele quer guerra!”, vociferou o incorrigível Guilherme II ao ler relatos do encontro do tio inglês no iate do czar russo. Dois anos depois, todavia,  estava o kaiser em Londres, entre contrito e aliviado, para os funerais do rei.  Mas a Grande Guerra que faz 100 anos este ano vinha sendo armada, consciente e inconscientemente, por todos os parentes e desafetos europeus presentes àquelas exéquias.

Interessante notar que todo período que precede conflito aberto entre nações tomam forma discursos eloquentes e convincentes sobre a irracionalidade econômica de guerras entre potências. Mas ideias  racionais são às vezes trituradas pelas paixões humanas. A ideia fixa de criar coincidência entre fronteiras políticas e econômicas, que desprezava a possibilidade de uma coexistência cada vez mais interdependente, pôs fim ao primeiro grande ensaio da globalização, lançando o mundo à guerra.

A tensão que existia latente na Europa do início do século XX foi trazida à tona por um acontecimento que poderia ter sido gerido de maneira diferente. A sucessão de eventos a partir do assassinato do arquiduque austríaco com sua série de erros de cálculo de todos os lados é narrada com maestria no livro Canhões de Agosto. Nesse livro, a jornalista Barbara Tuchman defende a tese que influenciou bastante a conduta do presidente John Kennedy durante um dos períodos mais tensos da Guerra-Fria envolvendo Cuba.

A crise atual na Ucrânia que traz novamente a Crimeia para a possível posição de palco de guerra, pode se tornar um assassinato mal gerido. As nações não podem se permitir cair em armadilhas para as quais não há saída, sugere Tuchman. Para o Secretário de Estado americano, John Kerry, a Rússia não pode agir em pleno século XXI como uma potência do século XIX. Por mais que isso seja verdade, também não dá para desconhecer que alguns elementos são atemporais. A Rússia é uma potência que quer continuar como tal e vê uma União Europeia se expandir irrefreavelmente para cima dela. A ofensiva de charme e dinheiro do século XXI pode ser mais adequada e aceitável do que a de laços históricos e armas, mas não pode o ocidente monopolizar o uso das primeiras sob pena de só deixar as últimas como alternativas para quem desejam cercear.

Uma mal elaborada saída política tenta marcar um referendo no qual a população da Crimeia dirá se deseja permanecer na Ucrânia ou passar a fazer parte da Rússia. Independentemente do resultado da votação, dificilmente a vontade popular seria aplicada de forma pacífica. Outras mais bem intencionadas devem ser tentadas se houver indicação que os líderes mundiais querem uma saída e para isso apresentam um buraco na sua personalidade, como se fosse uma fenda nas ambições do poder por onde possam passar ideias compartilhadas de paz e de futuro para dois povos bicudos cuja história é de muitos poucos beijos.

Na fronteira oriental da União Europeia existem partes que querem se mover para oeste, em direção a Bruxelas – salvo quando não há interesse europeu em recebê-las. Em relação à Turquia, por exemplo, vizinha da Ucrânia, a União Européia se comporta como se não acreditasse no que diz. Por isso dizer que em hipótese nenhuma o movimento pode se dar para leste em direção a Moscou seria gerir a crise à maneira do século XIX, uma armadilha da qual não se escapa. Isso seria uma ironia nessa época em que, depois de muitas décadas, o mundo volta a ter, relativamente e em muito mais alto grau de integração, algo próximo dos níveis de globalização e interdependência que precederam o conflito de 100 anos atrás.

Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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