O FLORENTINO, O GENOVÊS, O SICILIANO

O FLORENTINO

Correio Braziliense e Estado de Minas –  domingo, 11 de Dezembro de 2016.

Quando tudo não é o suficiente, lembro-me de uma velha história oriental. Um rei, no leito de morte, diz a seus herdeiros: meus filhos, espero que vocês tenham muitos problemas. É a única maneira de valorizarem sua sorte e serem justos com os que não a tiveram.

O florentino Matteo Renzi, passou a ter cargos eletivos nos anos 2000. Percorreu um caminho político rápido, até o cargo de primeiro-ministro da Itália, do qual se despediu precipitadamente quarta-feira passada. Sua queda não foi, decerto, nem de perto tão traumática quanto a da presidente Park Geun-hye, da Coreia do Sul, defenestrada na sexta-feira após amargar míseros 4% de aprovação em meio a um escândalo de corrupção.

Em Sao Paulo, sexta feira, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, duas privilegiadas, choraram as mágoas de sua destemperança pessoal, botando a culpa nos outros. Coisas do mundo. Park foi tragada pelo espanto; Matteo tentou tragar o espanto até fazê-lo desaparecer além das suas forças.

Matteo é político forjado como tal, sem grandes simulacros. Por um lado, não fez sua carreira pela adulação. Na verdade, como boa parte dos políticos, cresceu criticando seus predecessores, arquitetando a adesão a ideias percebidas como melhores. Por outro lado, característica mais interessante no momento, ele se difere do que parece vir por aí: a onda dos movimentos alastrados pela desilusão, cujas cabeças assanham-se sobre a política, num jogo complicado de simultânea negação e desejo do espaço político.

Renzi jogou bola, ganhou grana em quiz televisivo, programas de auditório repleto de perguntas idiotas, fez política universitária, trabalhou anos no negócio de marketing da família, foi e mantém um jeitão de escoteiro. Como todo político que precisa de um chiste que cale no coração do eleitor, Renzi cresceu bastante.  Proclamava espertamente que políticos antigos, da safra de Berlusconi, deveriam se aposentar. Ironia do destino, a onda renovatória representada por ele foi, no entanto, já alcançada por uma nova onda formada, na arena da política democrática da sociedade civil organizada pelas ruas. Renzi foi aposentado pela frenética competição tresloucada.

Veio o genovês Movimento 5 Estrelas do comediante Beppe Grillo, hoje disputando o posto de maior partido da ultra multipartidária Itália. Criado há menos de uma década, o Movimento foi a agremiação que capitaneou os esforços para afundar o referendo patrocinado por Renzi. A proposta defendida por Renzi perdeu por arrasadores vinte pontos de diferença. O que ela propunha? Noves fora zero, uma tentativa racional de melhorar a governabilidade do caótico panorama político do país. Afinal, o desenho institucional italiano é barroco e dá poderes demais a instâncias que se sobrepõem umas às outras, em deselegante harmonia.

O primeiro primeiro-ministro da onda digital na Itália, Renzi não podia imaginar quão fugaz seria sua passagem e, mais importante, a forma que viria sua derrocada. Todavia, manteve a galhardia, suavemente galhofeira, dos jovens de espírito, ou velhos de alma, mandando um “Ciao a tutti!!! E grazie”, nada mais disse ao ir embora.

O Movimento 5 Estrelas, que se entranhou nas estruturas institucionais italianas ao arrematar a prefeitura de Roma, se diz ao mesmo tempo contra o establishment, e a favor de ideias que asseguram maior concentração de poder ao establishment. Ah, Itália, e suas revoluções que fecundam à luz do dia, sempre tão docemente tolas e retrógradas. Usam e abusam de ocas palavras de ordem.

As palavras não são as coisas que elas representam. O Estado se desacostumou da sociedade. O 5 Estrelas passou recentemente a dizer desbragadamente que quer governar. A realidade que narram direciona todos os que o ouvem, ao invés de pensar, para uma raiva da vida real e negação de seus processos. A maioria que segue este tipo de líder só está ali por se sentir importante. Sentimento cada vez mais distorcido nos tempos atuais.

Mas há outro. Figurando como favorito para assumir o lugar de Renzi está o juiz siciliano, tornado presidente do Senado, Pietro Grasso. Alçado ao sucesso pelo combate a máfia, após denunciar políticos do país, foi achar sua paz pessoal, no Senado em Roma. Que dizia desprezar.

Toda a peleja ideológica se encerra na Itália, entretanto, com uma notícia que o Brasil nunca deixa de produzir. Um descalabro da barbárie de um país cuja Suprema Corte é a sombra de um partido político de onze membros.  No Corriere Della Sera, principal jornal de Milão, acotovelando-se entre as manchetes de sexta-feira, estava a morte do terceiro italiano em menos de um mês no Brasil. Dessa vez no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, coração do Rio de Janeiro.

 

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Paulo Delgado  é  sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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