A decepção dos felizes

O Globo – 3 de setembro de 2012.

Ninguém aguenta uma sequência interminável de dias lindos – é a fórmula clássica da decepção dos felizes. O dia do benefício é a véspera da ingratidão, ouvi essa de Ulysses Guimarães quando cheguei à Câmara dos Deputados para ser constituinte.

É inevitável a frustração de quem só deseja o que não possui, tem mania de pôr a culpa nos outros ou não percebe o individualismo nocivo que tomou conta do mundo.

Em relação ao Estado, a proliferação infinita de direitos, juntamente com o declínio do princípio da igualdade de todos perante a lei, fez a consciência das obrigações de muitos de seus membros tornar-se um fato de responsabilidade unilateral que parece interessar somente a eles. Em relação à sociedade, como consumir tornou-se uma função do crédito, e não é mais uma consequência de poupar e economizar, a moderação e a racionalidade deixaram de ser fundamentos da vida individual.

Quando Mervyn King assumiu, em 2003, a presidência do Banco da Inglaterra, o Banco Central daquele país, no discurso de posse elogiou o momento vivido dizendo que a década anterior e os anos 2000 estavam sendo um período nice . Mervyn King colocou em uma expressão sonora as características principais que sintetizavam a época.

Com a palavra nice , do inglês, que pode significar “legal”, “bacana”, ou “prazeroso”, usou as letras iniciais de Non-Inflationary Consistently Expansionary para resumir a expansão consistente e não inflacionária das duas décadas de ouro do sistema financeiro. Em junho de 2008, quando começou a quebradeira nos EUA, King alertou que a fase nice havia chegado ao fim.

O que veio à tona depois é que o modelo se assentava em uma engenharia financeira megalomaníaca e falha. Quando os pilares insustentáveis do funcionamento desse cassino foram desnudados, o prédio, que se mantinha em pé pela força da crença e da desinformação, veio abaixo. No fim das contas, o período teve muito de enrolação, sem sabedoria para o futuro ou metas reguladoras que fizessem com que a ambição de usufruir da riqueza não se opusesse ao conhecimento que a produz.

O que era nice não passava de um egoísmo patológico e autodestrutivo.

O Brasil sofre com a crise, mas, felizmente, nosso governo ainda tem o controle do orçamento nacional. Tal situação pode mudar se os servidores do Estado perderem o interesse pela opinião da sociedade, dando a impressão de integrar uma máquina sem dono.

Nosso dilema é frear o apetite à flor da pele que nos acostumou a sacar a descoberto e sempre achar que a maximização do autointeresse constrói uma nação. É boa notícia ver o governo buscar a melhor alternativa de ação que ajude a mudar comportamentos egoístas e crie um caminho de êxito para a política econômica. Porque, no limite, a incerteza em relação ao bem-estar de todos faz prevalecer a força de objetivos díspares e conflitantes – o governo movido pela obrigação de agir, a sociedade querendo mais permissão para pedir.

Nesse sentido, um equilíbrio, simultâneo e combinado, entre conhecimento governamental e escolha individual é necessário para construir um novo modelo de crescimento.

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Paulo Delgado é sociólogo. Foi deputado federal.


Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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