A Esfinge de Obama

A Esfinge de Obama

O Globo – 4 de Novembro de 2013.

Os EUA parecem ser, aos olhos do mundo, definitivamente culpados. Como Édipo, não se opõe ao seu destino.  Neuróticos da ideologia liberal vivem essa tragédia dos povos anglo-saxões: alucinados pela mãe pátria fizeram da rivalidade pelo mundo não inglês a luta permanente para decifrar o enigma do poder, o complexo do “macho” governamental que atormenta o inconsciente das democracias.   Mas os EUA não são os histéricos da psicanálise freudiana: não perderam o controle do universo, não deixaram de ser cristãos, não entregaram seu narcisismo ao controle dos outros.  Pelo contrário, os países que reclamam e respiram a contragosto estão é com vergonha de não serem os culpados. A espionagem abalou o casamento arranjado pela hipocrisia das nações.

Nas últimas duas semanas o caso do aparato de espionagem global da NSA estacionou no Atlântico Norte. Mas o que parece ter virado briga de cachorro grande é na verdade boa e velha briga de comadres. As noticiadas 60 milhões de ligações coletadas no período de apenas um mês na Espanha juntaram-se às 70 milhões mensais na França e às 500 milhões de coletas – entre emails, telefonemas e mensagens de texto – efetuadas na Alemanha. Os números impressionam, mas o que está em jogo é que o sistema on-line de controle de informações libera qualquer governo de toda restrição em relação  à sociedade.

O que é importante é que os Estados Unidos dispõem de tecnologia e poder político para realizar esse monitoramento e não abrem mão de fazê-lo. Debater isso publicamente é que é a novidade. Assim, desista de entender se você está pensando em tanques, aviões e energia atômica. Fazer o mal para se sentir vivo não é o que mais  conta: PIB, tecnologia, instituições e produtividade são exceções mais interessantes do que a regra. Quem foi espionado, mas não tem capacidade de afetar resultados políticos mundiais, já foi deletado. Não se arquiva ignorância, somente propósitos.

A administração Obama será chamada a decifrar melhor as razões de seu entusiasmo por coleta de dados. Dificilmente mudará de ideia  por duas razões: primeiro, eles acreditam no que fazem e creem ser temeridade deixar um vácuo nessa área (afinal, vácuos são sempre preenchidos em ambientes abertos); segundo, eles sabem que não há santos nessa discussão sobre a primazia de uma nação devorar a outra. Afinal, Washington tem claro que o uso da opinião publica iniciou-se para provocar o nivelamento no jogo da espionagem internacional e reduzir a vantagem americana.

O sentimento dos norte-americanos é que os países europeus não têm uma escuta no BlackBerry de Obama não é por não tentarem e sim por não conseguirem. E se não chegam a tentar para valer é por medo do desenlace político de tal descoberta. Os EUA são o único país que ignora  o custo político de uma ação hostil a aliados. E o fazem por cortejar sem assombro o papel de guarda noturno do mundo.

A democracia é um empreendimento jurídico-comportamental, não uma peça de teatro. Sanar o secular problema sobre quem vigiará os vigilantes é que sempre foi uma tragédia.

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PAULO DELGADO

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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