Amigo da Onça

Amigo da Onça

O Globo, 2 de Maio de 2016.

A câmara clara, registro fotográfico da votação do impeachment, revela um país mais apegado ao prazer indevido do que propenso ao barbarismo.

Como se tivesse tomado leite azedo ele começou a declarar o voto. Abriu o porão, soltou o soldadinho de chumbo que coleciona.  Lagarta, se ofereceu aos quarteis qual borboleta. Rígido, deslizou pelo mapa da lembrança e desceu a escada que leva à caverna onde guarda seu segredo. Um deputado fardado caiu na gargalhada e provocou perturbação na cerimônia, já cansativa, em que ele celebra núpcias com cadáver. Seu menino, que o remedava, chegou por trás e soprou no ouvido carinhosamente: pai, termine o ato, sim ou não, pouco importa, você vai se resfriar. Sua sopa ficou pronta, piscou para ele.  Fechou os olhos, sentiu um definhamento na agitação que oferecia e, descontrolado, tossiu. Por sua garganta subiu o incômodo do estômago. A colega, ao lado, viu na náusea decepção e sussurrou: êxtase errado, ele fantasia mal a ereção. Água agitada não é funda.

E aquela histeria que tomava conta da sessão, sedução traumática e clichê do poder quando vai perdendo a forma, fez um retrato claro da caixa de gordura que é o sistema eleitoral atual. Onde o discurso é um resíduo barulhento que não impõe a quem o faz nenhuma obrigação estética.

Um pouco antes, um jovem cético repetia que a lei pode até impedir um homem de roubar, mas não conseguirá fazê-lo deixar de ser ladrão. Foi em direção ao microfone com o aforisma de Schnitzler na ponta da língua. No caminho sentiu o rio raso e temeu pisar peixe pequeno.  Como não devia favor a ninguém decidiu apostar na largura da margem. Pareceu irritado com o realismo total da política e, influenciado pelo clima, fantasiou uma agressividade. Se envergonhou com o papel que faria, abriu as portas da percepção.  Sem treino para enganar, formal, disse sim, e saiu dali. Sentiu grande vitalidade. Mas ninguém o fotografou ou quis partilhar o seu silêncio.

Naquele estúdio da capital, a plenitude da foto, é mais do que o ator ao microfone. Panela vazia faz mais barulho e, é ele, que aciona o flash. O close abre uma picada no interesse popular e revela, também, a vontade do olho partilhar a estranheza da cena. Multiplicada pelo desejo de transgredir, se admirar, vira vertigem. E faz do ambiente o ornamento que contém o vazio do Brasil diante do futuro.

Quanto mais fraco o cérebro de argumento, mais forte o músculo da garganta. O governo, que fez mau uso do êxito que já teve, só conseguia ser defendido aos berros. Sou  fugitivo da injustiça, se enganava, triturando a prudência e a lei. Perfurada a defesa do líder que criou tal situação ficaram gritos, usados para intimidar, e contaminar o plenário com extravagantes ideias sobre democracia e igualdade perante a lei.  A maioria, que nunca desiste de ideais privados, aborrecia os outros com consanguinidade e fé.

Não é o Congresso um mal quarto de enfermo para as doenças da nação. Político amigo da onça, fervoroso e irracional, a paisana, de farda ou de terno, se gosta de cachê, auxílio moradia, avião de graça, emenda parlamentar não tem força para queimar nenhum país.

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PAULO DELGADO  é  sociólogo.

 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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