Atrás da Cortina

Atrás da Cortina

O Globo – 5 de Agosto de 2013.

Sexta-feira, 19 de julho. Os jornalistas aguardavam mais uma coletiva à imprensa conduzida pelo porta-voz da Casa Branca quando o próprio presidente entrou na sala anunciando que falaria sobre um assunto que agitava os Estados Unidos. Barack Obama explicou que vinha acompanhando o debate nacional sobre o caso do jovem Trayvon Martin – assassinado na Flórida e cujo assassino foi julgado inocente seis dias antes.  E que sentia ser seu papel dizer o que pensava a respeito do caso.

São muitas as técnicas que transformam autoridades em atores e a política em espetáculo. Mas poucos os chefe-de-estado capazes de ir ao centro sagradodos valores da sociedade sem conspirar contra a credulidade das pessoas comuns.  Obama falou sobre um tema que causa forte emoçãoatravés do país. E as coincidências da vida lhe permitiram que também pudesse falar com íntimo conhecimento do assunto. Obama, que nunca deixou escapar pretensões favoráveis a qualquer símbolo especial ou status derivado de sua vitória eleitoral, sempre se furtou a carregar nos discursos sobre as divisões raciais que persistem severas nos EUA.  Chegou mesmo a evitar o assunto – razão pela qual foi repetidas vezes criticado por grupos engajados que o viam tentar parecer um presidente pós-racial – mas dessa vez não fechou os olhos para o clamor social.  Por conta de um fato específico falou a respeito do preconceito que existe contra negros no país.  E da maior fragilidade social da vida dos jovens negros numa sociedade opulenta, mas ainda segregada.

Sem qualquer idealização negativa, pretensão de praticar modéstia ou “desempenhar” afeto diante da tragédia chamou a atenção para o fato e sua verificação.  Disseque as instituições do país precisavam providenciar um caminho para uma “União mais perfeita” ainda que não perfeita.

Uma União em que boa parte das áreas pobres é composta majoritariamente de negros. De pessoas que ao longo da vida foram mais expostas à violência do que o resto da população. “Trayvon Martin poderia ter sido eu há 35 anos”, disse Obama, mortalmente ferido.E foi além, sem esconder a angústia das lembranças nunca abandonadas, aorevelar que raros são os negros que nunca foram tidos como suspeitos e seguidos dentro de uma loja, ou que não viram as portas dos carros serem trancadas quando se aproximam ao atravessar uma rua, ou ainda que não presenciaram a sensação de desconforto e certo desespero de senhoras que se agarram às suas bolsas quando tem de dividir o elevador até terem a chance de sair dali. “Não quero exagerar (com esses exemplos)”, mas “eles ocorrem frequentemente”, lembrou.

Obama, que viu disparidade racial na aplicação da lei, perguntou se o júri consideraria igualmente correto que, hipoteticamente, Trayvon atirasse em legítima defesa por ter se sentido ameaçado ao ser seguido por um desconhecido? O que Obama quis dizer é que a cortina da janelada democracia americana é estampada só de um lado. E que esse lado mais bonito fica para fora da janela do país.

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PAULO DELGADO 

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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