Ave, Dilma

Ave

O Globo – 1º de junho de 2015

O poder é um desenho traçadopara quem ganha a eleição. Exercido por líderes de comportamento mais livre parece informal, fazendo o governante simpático e vaidoso. Com Dilma tem sido diferente. Seu estilo autoconsciente tem levado seus críticos a atribuírem a ela os problemas do país e ao seu antecessor, o ex-presidente Lula, a insistir em querer ajudá-la com o seu jeito caloroso. É a formação de Dilma, sua personalidade e sua história autocentrada, que propicia a transmissão das coisas assim como são, mesmo parecendo ser ela a única responsável pela maneira como tudo o que diz e faz o governo. Por culpa dela.
A interpretação é uma visão de segundo grau, diferente da informação original, e a operação mental exigida para o comportamento crítico é outro modelo de comunicação. A história ainda não passou, mas o pessimismo atual deve se dirigir não a Dilma, mas ao fato dela ter se fixado demais nos preconceitos que a publicidade tem com a verdade. Todos os presidentes subjugados às referências artificiais impostas pelo modelo marqueteiro de uso das mídias usaram o preconceito contra o povo para se eleger e governar, como se tudo fosse uma performance. Modificaram o conhecimento das coisas e aceitaram modificar sua natureza. Dilma perdeu o tom com esse jogo sem princípios, sentiu a poderosa voz da desaprovação, mandou o marqueteiro plantar batata. Ficou inteira com o governo, sem espelho, sem narciso, certaque errou a mão, ao ler textos alheios, deixar sua voz ser dita por outros, como se não importasse o fato da fala viver na clausura do corpo.
Dilma não quer andar mais nos trilhos dos outros. Nunca quis na vida. Mas para sair desse gosto muscular que a política tem por gladiadores, precisa resolver com sua alma, solitária e silenciosa como se comporta, o sentido que pretende dar à sua liderança. O fato de ser você mesmo não pode implicar o sacrifício dos outros. Para isso precisa escutar a voz que vem de outra parte, perder o hábito de tratar com indiferença a opinião do outro. Errar e acertar junto, distribuir, re-conhecerlimitações simbólicas sem recorrer à demagogia, libertar-se dos limites da autossuficiência sem medo da própria voz, modulada por frêmitos profundos da vida, diferente de oradores profissionais. Se possível, deve evitar duas modalidades de uma fama que impõe angústia à sua forma de governar: ser a doutora “sabe tudo” e exigir clandestinidade dos seus aliados moderados. Partilhar o prazer de aceitar que democracia política estável só combina com austeridade pessoal, legalidade e responsabilidade econômica. Isto seria inédito no período petista: a alegria de, livre das duas tendênciasmajoritárias ¬– a ala do cada um por si e o bloco do todos a favor do um –, não sufocar a expressão corporal e intelectual da ideiamoderna de esquerda que criou o partido.
Apesar da desordem na simbolização da sua experiência como autoridade a fazer parecer desagradável, a presidente acerta ao tirar o charme do Palácio, acabando com a má reputação que a intimidade conferiu ao poder. A história é longa e lenta, não veja insânia na dificuldade, tire dela a razão enquanto é tempo.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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