Doenças do sonho

Doenças do sonho

O Globo – 3 de fevereiro de 2014.

Economia e geografia não são tão diferentes como parecem. Há cidades em que a riqueza é produzida na parte mais pobre e, pelos artifícios tributários, sua distribuição se faz no lado rico que a usufrui. O que não impede o fato de que, sem lugar para canalizar compulsões, é pelo luxo que se descabelam todos os obcecados, ricos ou não. A inveja do tênis, esse objeto de desejo que leva os jovens à busca da suprema elegância, é o que se vê por aí em todas as classes sociais. Charuto, carro, champagne. Sala VIP, celular, roupa-bolsa-grife transformam sapo em príncipe neste país que não nasceu para grandes escaladas.  E, cada vez mais violento, diverte-se com o hábito horroroso onde xingar o outro é forma de testar a intimidade entre amigos.

O Brasil vem lutando sem saber contra a força de um paradoxo que o persegue. Os anos passam sem que a nação se atente para a importância do tempo.  Nenhum período aqui tem controle sobre seu desenrolar histórico ou se interessa pela proporção ou adequação das coisas aos lugares. O prodígio que nos governa é a tradição do passado se meter no meio de tudo e considerar sem retorno suas agonias.  É sempre pela via do deslumbramento, com o bem, com o mal, que nosso povo toma conhecimento da realidade.

Sexo, dinheiro e violência, mitos do hip-hop, do rap, do embalo da droga não são estranhos aos mitos do poder e da influência. Sua expressão artística, seus porres, esse lazer de usufruto imediato não está revestido de nenhum sentimento criativo, é pura fantasia sem imaginação. Seus comícios inconvenientes veiculam ondas de desejos que a alienação oferece como ídolo. Com um pormenor intrigante: país de subúrbios maltratados, sem áreas de lazer respeitosas, na mira de policiais violentos tem logo ali do outro lado um lugar com estacionamento, confortáveis praças de alimentação, corredores de agradável frescor, abarrotados de sonhos com vendedores simpáticos e solícitos, guardas atentos e informados, como não se encontra, como regra, em nenhuma repartição ou lugar público.

Em sociedades como a nossa sempre existem dois pesos e duas medidas. Para uns, nenhum problema, são os “esses”, sirvam-se à vontade. Para outros, os “aqueles”, ali esquisitos, as regras do bom comportamento. O Brasil cresce pródigo em equívocos, vivendo o risco social que une a alienação materialista dos abastados às peripécias do idealismo alienado dos emergentes.

Sem nenhum preparo para enfrentar contradições do progresso, o país sacrifica todas as doutrinas que criaram sociedades sólidas, e prefere se exprimir quantitativamente, como se fosse inundação. Soterrou o jovem com esse vai-e-vem secular de posse e perda que o faz nem saber que vive a vida que não quer viver, empurrado como destroço para fora de casa, da escola, da arte, da ciência, do amor.

O que o Brasil tem medo é da juventude da qual desconhece tudo e sente dolorosamente falta. Quem sabe o que a garotada quer dizer, naquela língua estranha em que se expressam é que, de boa, como o ano é de eleição, que tal um dono de Shopping para chefe do executivo?

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PAULO DELGADO é sociólogo.

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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