Esperança ou morte

Esperança ou morte
O Globo – 7 de Setembro de 2015.

Um espectro ronda o Brasil. O espectro do pessimismo e da falta de modéstia. Diante do enigma que virou a vida pública pergunte a autoridade se ela é honesta. Se disser sim, é desonesta; se disser não, pode ser honesta. Todos receberam cargos sem o direito de o exercerem em seu próprio beneficio. Nenhum deles mentiu para a sociedade quando mudou de comportamento. Mentiu para si mesmo. Mas todos têm direito de se arrependerem. Uma dúzia de opiniões independentes para um país trancado em sua própria mente.
1- Todo ministro será vacinado contra os humores da presidente da república. Seu antecessor se compromete a não ajudar a aumentar, com sua volúpia, a bagunça governamental da escolhida por seu gosto;

2- O pensamento será considerado uma atividade da razão. O capitalismo passará a ser um sistema econômico e não mera opinião política;

3- Chamar o erro de erro, divulgar o mal como o mal, não será considerado traição. “Só quem ama pode tornar-se um traidor. A traição não é o contrário do amor, é uma das suas opções”. Entre fanáticos, “traidor é aquele que muda aos olhos dos que não podem mudar e não podem conceber a mudança com exceção de que sempre querem mudar você”.

4- Quem perceber que seu talento não corresponde às necessidades atuais irá para casa estudar mais um pouco. O poder é uma finalidade mais do que uma prerrogativa. Relativizar seu peso costuma ser mais útil do que valorizar a ambição de servi-lo;

5- Nenhum juiz ou delegado injuriará um rico por delito passível de perdão. Nem humilhará um pobre por imaginá-lo imperdoável. Não vestirá toga por gosto da pecúnia nem a abandonará para fazer sua carreira;

6- A honestidade será considerada uma habilidade essencial para o mundo do trabalho. O senso de interesse não prevalecerá sobre o senso de dever. Os desejos das corporações não serão superiores aos desafios da nação. Todos farão um esforço para aceitar e compreender o caráter socialmente útil da virtude;

7- Quem quiser ser rico não servirá ao Estado. Nenhum homem público receberá além do razoável. Quem exigir na justiça, ou levar os tribunais a conceder verbas ou privilégios de algum tipo, será acusado de enriquecimento ilícito e terá que indenizar a sociedade pela frustração que é ver a autoridade cuidar primeiro de seu próprio caso;

8- Não haverá direito adquirido contrário ao interesse publico. Ninguém amará mais seus privilégios do que as carências da maioria;

9- Fica proibido às autoridades insistirem na tal “vontade política” e na mania de “fazer um gesto”. Está suspensa, por 100 anos, a relação da política com carismáticos, gestores, interesseiros, demagogos, marqueteiros, moralistas. “Desgraçado o mortal audacioso que finge saber o que ignora e empreende o que ultrapassa o seu poder”.

10- Nenhum governante vai se concentrar no que é bom para ele. Todos vão se dedicar ao que realmente Deus lhes pede.

11- Ninguém, analfabeto ou estudado, terá orgulho de ter ido tão longe se seu horizonte é estreito;

12- Ainda é tempo de explorar a força moral da esperança.

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Paulo Delgado é sociólogo.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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