Infidelidade de resultados

Coisas de poltica – Dora Kramer – Jornal do Brasil –

Dissidente na época em que o PT tinha um discurso radical e agora engajadíssimo à direção na fase moderada do partido, o deputado Paulo Delgado é dos petistas mais irritados com os parlamentares governistas resistentes às reformas.

Para ele, três motivos levam à infidelidade partidária: confusão intelectual, demagogia e interesses contrariados.

Os confusos, define Delgado, querem continuar a ser oposição mesmo no governo; os demagogos pretendem manter o eleitor em estado permanente de desespero e desalento; os contrariados almejam mais influência no poder.

O rebelde da vez, senador Paulo Paim – que comparou José Dirceu a Golbery do Couto e Silva -, na opinião de Paulo Delgado, faz ”um bom negócio” quando alega problemas de consciência para votar a reforma da Previdência da forma pretendida pelo governo.

”Ninguém é senador só à custa da própria consciência, muito menos vice-presidente do Senado. É óbvio que para isso é preciso se valer da estrutura do partido ao qual o parlamentar deve fidelidade”, diz ele, acrescentando: ”Paim é mestre nesse tipo de coisa e sempre teve tudo o que quis do partido.”

O governador do Acre, Jorge Viana – outro petista moderado cujo discurso sofria reparos internos em outros tempos -, concorda plenamente: ”Acho que o senador Paim recebe um tratamento excepcional. Eu diria, até além do merecido.”

Como o deputado, o governador considera que o senador joga para a platéia, ”esquecido de que, para se eleger, precisou, e muito, do partido”.

Mas, a analisar apenas o caso de Paulo Paim, Paulo Delgado prefere discutir a questão da fidelidade. Principalmente porque durante os últimos anos foram raras as ocasiões em que concordou com o PT e, por causa disso, lembra, pagou um preço alto.

”Nunca fui líder, nunca fui da Mesa da Câmara”, diz, numa referência a um tempo em que tinha mais afinidades com os tucanos do que com os petistas, então preocupados com o ataque àquilo que hoje defendem.

Na opinião de Delgado, o parlamentar governista que resolve fazer oposição ao governo ”produz resultados predatórios”.

Donos de um mandato de quatro ou oito anos, ”oferecem a cabeça do governo a prêmio agora, mas só põem as deles em jogo na hora da eleição”.

Por incrível que pareça, o deputado não tem a mesma opinião a respeito da posição da senadora Heloísa Helena. ”Ela paga o preço da paixão. Perde tudo, não tem regalias, fica no partido e resiste.” Aliás, o deputado não explica a razão, mas hoje apostaria na permanência da senadora no PT.

Quanto ao pessoal do chamado jogo duplo, Delgado é favorável à imposição de algum ônus a eles. Por isso, diz ter sido dele, e não de José Dirceu, a sugestão, numa reunião da bancada, para que Paulo Paim entregasse o posto de vice-presidente e ”ficasse só na companhia da sua consciência”.

De outro modo, os infiéis têm apenas vantagens. ”É uma glória sair do PT hoje no Brasil. Não custa nada e ainda satisfaz os egos.” Desse jeito, acrescenta o petista, ”prefiro o pessoal que troca de partido por razões mais pragmáticas e não fica se fazendo de herói”.

Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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