O bem-estar da sucessão

O bem-estar da sucessão

O Globo – 7 de Julho de 2014.

Não se orienta pessoas que partem para expedição às montanhas no inverno a levar trajes de verão. Da mesma maneira, é ilusão não reconhecer a grande oportunidade que estádios de futebol oferecem para que os defeitos das pessoas se manifestem. Boca suja e língua solta não são privilégio de torcedor de futebol. Há governantes com repertório muito melhor. Com a volta do álcool ao jogo por submissão do governo à indiferença da Fifa com as tragédias que ele provoca, a combinação massa-euforia-depressão leva junto a educação.

Se ainda houvesse humor na política, diríamos que é bom ir a velório onde o morto parece o mais aliviado. Pois, em matéria de política, vivo mesmo é sempre o governo. Por isso, governante nenhum gosta de vaia. É como ler o próprio obituário em vida. Alguns já se destacaram por comer o tomate atirado em sua direção ali mesmo na frente do agressor. Ovos não sei se dá para fritá-los mesmo diante do incandescente ambiente doméstico que estamos vivenciando.

Não é fácil entender a conduta humana misturada na política. Amar os inimigos é tão grandioso quanto amar seu próximo como a si mesmo. O poeta alemão Heinrich Heine, brincalhão, confessa: “Tenho a mais pacifica disposição. Meus desejos são: uma modesta cabana com teto de palha, uma boa cama, boa comida, leite e manteiga bem frescos, flores diante da janela, em frente à porta algumas belas árvores e, se o bom Deus quiser me tornar inteiramente feliz, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos serem enforcados nessas árvores. De coração tocado eu lhes perdoarei, em sua morte, todo o mal que na vida me fizeram — pois devemos perdoar nossos inimigos, mas não antes de serem executados”.

A sucessão caminhará melhor se ficar menos hipócrita. Os candidatos devem decidir não ver inimigos na realidade e parar com essa mania de botar luta de classes nas dificuldades de governar. Afinal, na Esplanada dos Ministérios e nos palácios estaduais habitam todas as elites, algumas já mortas, mas ressuscitadas por técnicas de coalizão e respiração público-privada. A base disso é que todo governo é no fundo conservador, preservacionista. Adora um clima passional para enquadrar como dissidente, inimigo e traidor todo crítico e competidor. São os próprios governos que criam sua armadilha e alimentam a oposição a eles quando insistem em buscar prazer no contraste, o confronto permanente.

A psicanálise sustenta que a agressividade se torna poderoso obstáculo à civilização se a defesa contra ela causar tanta infelicidade como a própria agressividade! O infortúnio atribuído aos “outros” é resultado da confusão da política — de direita e de esquerda — que considera o Estado mais importante do que a sociedade. O estatismo vira fácil uma forma de militarismo. A energia agressiva — o ódio — que a autoridade acredita ser só da sociedade vem também dessa política de prontidão permanente sobre a vida do cidadão.

A sucessão é o momento da sociedade, de testar o seu bem-estar.

Paulo Delgado é sociólogo.


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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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