O ELOGIO DA LOUCURA

O ELOGIO DA LOUCURA

O Globo – 3 de Agosto de 2015.

Catequizador e incontido. Assim é o dinheiro. Quando não é domesticado vira arte ou violência. Como na passional relação em casamentos que se desfazem a ideia de dois continuarem a viver juntos é tão terrível que a sensação de trair a vida é pior do que a de trair um ao outro. Tudo ultrapassa a motivação original, e o fracasso das experiencias mais íntimas e poéticas torna-se logo o fracasso da vida social. O conteudo mais remoto do dinheiroé que suas ações e consequências para as nações são muito semelhantes ao viver junto. O riso, a furia e o esquecimento são mera questão de tempo.
São pobres, pessoas e nações, que pensam apenas em dinheiro. Pasmos estão os que vêem a União Européia comoum grande mercado atrativo, arrumado e esquecem a história. A Grécia, desorganizada e atrevida, não quiz se revelar como cifrão,surpreendeu o louco por dinheiro. A estratégia do Banco Central Europeu de encurralar o cidadão, para que o fluxo de capitais corra sua boa vida, serviu paraalertar aos homens sãos que há sanidade na loucura dos que resistem ao fascínio do dinheiro.
Ainda que haja necessidade de lidar com dureza com aqueles que apostam na quebra de contratos, no caso grego, parece que Atenas jogou sozinho o jogo. O imaturo FMI,cemitério de sonhos e dinheiro, tem um código moral confuso com o qual pretende superar a adolescência do mundo através dagula, egoísmo e da cobiça.
O que há com o dinheiro que, parece comprar tudo, cria super-homens à beira de um ataque de nervos, mas não impede a morte de nenhum de nossos filhos ? O povo grego reagiu sem submissão, mas assombrado com a sua falta provocou o apetite nos saciados. Alterou por um momento a posição de chantageado a chantagista revelando, no espelho, o pior das autoridades gregas, o pior da banca européia.
Os economistas tecnocratas derrotaram a opinião da comissão política e impuseram o dogma financeiro: o dinheiro como moeda das relações humanas e sua prosaíca noção do justo. Insensibilidade atroz sobre um pequeno país com 60% de desemprego entre os jovens, e onde 2% da população cruzousuas fronteiras.Étriste descrever como sendo necessidade do outro o que as pessoas necessitam para si. Quem se lembra dos desejos sensuais de Dominique DSK, o ex-FMI? É incompreensível ver aonde chegou o nível de desumanização dos líderes europeus: mesmo não tendo a mínima idéia do que o mundo deve aos gregos, estão certos que os gregos devem aos bancos.
A questão não é só, morbidamente, política. Ela é, patologicamente, financeira. Vários tem noção disso, mas não os governos. Destaque para a hipocrisia da posição alemã que teve suas dívidas perdoadas em momentos muito piores da história criados por ela com aquele seu herói repulsivo.
É exagerada a ideia de que é sombrio o futuro da Grécia fora do Euro. Encarar os fatos relativos ao mundo patológico do dinheiro é parte da sanidade de quem decide não negociar tudo. Desafortunadamente, política e economia são um casamento fracassado. E, políticos, só sabem 230 palavras. Economistas, nada sabem do enigma do dinheiro.

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PAULO DELGADO é sociólogo.

 

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Paulo Delgado
Paulo Delgado
Sociólogo, Pós-Graduado em Ciência Política, Professor Universitário, Deputado Constituinte em 1988, exerceu mandatos federais até 2011. Consultor Independente de Empresas e Instituições nas Áreas de Política, Educação e Trabalho, escreve para os jornais O Estado de S. Paulo, Estado de Minas, O Globo e Correio Braziliense.

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